MADEIRA Meteorologia

Artigo de Opinião

Engenheiro

26/03/2026 07:35

No passado dia 22 de março, comemorou-se o Dia Mundial da Água, criado por resolução das Nações Unidas e em vigor desde 1993, visando consciencializar a população para a importância deste recurso. Mas na Madeira, desde o povoamento no século XV, que os colonos reconheciam a importância vital deste bem. Por forma a evitar grandes prejuízos e promover a equidade na sua utilização, a água tornou-se bem público e motivo de legislação especifica. Logo em 1461 regulava-se a sua repartição, e em 1493 D. João II proibia a apropriação privada das nascentes, determinando uma distribuição justa. Ao longo dos séculos, novas leis reforçaram este princípio, embora o Código Civil de 1867 tenha criado desordem, apenas corrigida com legislação posterior que restabeleceu os direitos ancestrais das levadas.

No início do século XX, a situação era crítica: conflitos entre “heréus”, degradação dos canais, fraca organização, crise agrícola e social. Para enfrentar o caos, o Estado Novo criou em 1939 uma Missão Técnica com o objetivo de proceder ao reconhecimento das possibilidades técnicas e económicas da Ilha da Madeira nos aspectos hidroeléctricos e hidroagrícolas, em conjunto. Em 1940, o relatório final, propôs 18 grandes aproveitamentos, 400 km de novos canais e um plano integrado que combinava regadio e produção hidroeléctrica, trazendo a água de onde era abundante para onde era necessária, e explorando o desnível natural entre a vertente norte e a sul para a produção de eléctricidade.

Com base neste trabalho, orientadas pela Comissão Administrativa dos Aproveitamentos Hidráulicos da Madeira, nasceram a partir de 1947, vastas obras: Canal do Norte, Levada da Calheta-Ponta do Sol, Canal dos Tornos, entre muitas outras, além de centrais hidroelétricas. Estas obras, concluídas ao longo de 25 anos, permitiram irrigar milhares de hectares, levar água à costa sul durante todo o verão, beneficiando mais de 30 mil regantes e fornecer energia eléctrica a toda a ilha. O esforço humano foi imenso, enfrentando territórios quase inacessíveis e riscos constantes, numa epopeia técnica e humana que ficou para a história. As levadas tornaram-se assim o símbolo de engenho, do sacrifício e da organização coletiva, estruturando para sempre o território e a economia da ilha da Madeira.

Já em Democracia muito também foi feito, com o esforço e a visão da Autonomia, paulatinamente os núcleos urbanos passaram a ser a prioridade, assim como a produção de energia hidroelétrica, uma energia limpa e renovável. Foi criado o IGA, centralizando-se a gestão hídrica do Arquipélago ao mesmo tempo que nascia o Sistema Regional de Gestão e Abastecimento de Água da Região Autónoma da Madeira, responsabilidades estas que ao fim de alguns anos foram assumidas pela ARM. As necessidades hídricas, as alterações climáticas e a idade das infraestruturas hidráulicas executadas pela Comissão exigiam novas respostas e projectos ambiciosos. Das levadas passamos a sistemas mais complexos de condutas e sistemas elevatórios, à dessalinização no Porto Santo, bem como às estações de tratamento de água, fornecendo água segura e sem intermitências. Mas o trabalho não terminou, e continua exigente e desafiante.

A redução das perdas nos sistemas urbanos, a criação de valor e recuperação de custos são novos paradigmas, convocando os responsáveis autárquicos, os gestores dos sistemas e a população em geral para os novos tempos da água na ilha, ou melhor, nas ilhas. As gerações vindouras assim o exigem e não compreenderão se nada for feito, e neste sentido temos de valorizar o recurso e a sua utilização responsável. A demagogia e a inércia nas actualizações tarifárias não são mais do que uma dívida oculta que estamos a deixar para as gerações futuras. A expressão “Só quem carrega o seu próprio balde sabe o valor de cada gota d’água” é uma metáfora cristã poderosa que enfatiza a responsabilidade pessoal e a importância de valorizar cada pequena conquista. Mas na gestão hídrica é uma verdade insofismável, e para não voltarmos aos baldes num futuro próximo há muito para fazer e de preferência com alguma celeridade, os nossos filhos vão agradecer.

OPINIÃO EM DESTAQUE
Geógrafo / Colaborador Europe Direct Madeira
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