A participação dos NAPA na Eurovisão 2025, após a vitória no Festival da Canção, marcou um ponto de viragem na carreira da banda, que passou a “viver da música” e a alcançar projeção internacional. O tema ‘Deslocado’, apresentado em Basileia, tornou-se um fenómeno global, com mais de 132 milhões de reproduções no Spotify, impulsionado pela visibilidade do concurso e pela viralidade nas redes sociais.
Em declarações ao JM, que podem ser lidas na íntegra na edição impressa desta terça-feira, o músico sublinha o significado desse momento para a banda madeirense, que levou ‘Deslocado’ a Basileia, Suíça, a 13 de maio do ano passado e, desde então, viu a canção sobre a saudade da “ilha, paz, Madeira” tornar-se um autêntico fenómeno. “Foi uma grande experiência e foi maravilhoso ter representado Portugal e a Madeira com a nossa música, que é tão genuína e importante para nós”, afirmou, destacando o impacto pessoal e artístico da participação.
É verdade que a representação portuguesa se ficou pelo fundo da tabela de classificações da Eurovisão, nomeadamente na 21.ª posição da final, contrariando, ainda assim, as casas de apostas que viam na proposta dos NAPA a canção com menores hipóteses de apuramento na semifinal. Contudo, hoje, e contra todas as probabilidades, ‘Deslocado’ é a canção mais ouvida da edição de 2025.
Apesar do impacto positivo, Guilherme Gomes admite que, no atual contexto, o grupo poderia repensar uma eventual participação. “Percebemos quem aceita ir e quem não aceita, porque está em jogo uma plataforma muito grande, mas é impossível ignorar o que está a acontecer no mundo”, disse.
Num cenário semelhante, caso os madeirenses estivessem na posição dos Bandidos do Cante, que apresentam ‘Rosa’ esta noite na primeira semifinal do festival, o músico admite alguma reticência. “Provavelmente não iríamos, porque se somos contra a participação da Rússia, também somos contra a participação de Israel”, referiu, acrescentando que a presença do país no concurso “não faz sentido”.
Questionado pelo Jornal, Guilherme Gomes esclarece ainda que, durante a experiência em Basileia, não houve pressão direta para evitar determinados temas, embora tenha existido algum desconforto nos bastidores. “Não houve uma pressão propriamente dita, mas houve bastante tensão enquanto o festival esteve a decorrer”, partilhou.
Não obstante o contexto que envolve o Festival Eurovisão da Canção e as críticas à atuação da União Europeia de Radiodifusão, os NAPA sublinham que a experiência trouxe também resultados positivos e abriu novas portas ao projeto. A banda prepara agora o lançamento de um novo álbum ainda este ano, bem como um novo single, e uma digressão europeia com passagem por sete países, entre os quais Espanha, França, Reino Unido, Alemanha, Suíça e Itália. Há ainda vários concertos previstos em Portugal continental, com mais datas a anunciar.
“É muito mais do que nós podíamos imaginar”, resume Guilherme Gomes.
Boicote de cinco países, artistas e trabalhadores da RTP
A 70.ª edição do Festival Eurovisão da Canção arranca esta terça-feira, em Viena, com a primeira semifinal, na qual participa Portugal, este ano representado pelos Bandidos do Cante.
O concurso decorre este ano com 35 países, após a desistência de Espanha, Irlanda, Países Baixos, Eslovénia e Islândia, em protesto contra a participação de Israel.
A contestação surge no contexto da ofensiva militar na Faixa de Gaza, iniciada em 2023, que já provocou dezenas de milhares de mortos e foi classificada como genocídio por uma comissão internacional independente das Nações Unidas.
Mais de 1.100 músicos e profissionais da cultura subscreveram uma carta aberta contra a presença de Israel no festival. Em Portugal, trabalhadores da RTP também apelaram ao boicote à transmissão do evento.
É de frisar que a edição de 2026 do Festival da Canção, organizado pela RTP para selecionar o representante português, foi marcada pela recusa de 13 dos 16 artistas a concurso em ir à Eurovisão caso fossem os vencedores.
A ação de Israel e a sua despenalização apesar das acusações de crimes de guerra estão na origem do boicote, sendo que os Bandidos do Cante, que hoje lutam por um lugar na final no palco da Wiener Stadthalle, foram os únicos a se pronunciar de forma positiva em relação a representar Portugal na Eurovisão.