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Artigo de Opinião

2/12/2023 06:00

Quase todos os dias, de manhã, abro as páginas dos jornais e em alguns minutos, dou uma vista de olhos pelas notícias que nos rodeiam, por vezes acompanhado de um café. No tempo em que aprendi a apreciar este pequeno prazer, esta rotina implicaria sair de casa, ler um ou dois dos jornais comunitários disponíveis (ainda hoje) na maioria dos cafés e, por vezes, comprar algum, normalmente um semanário.

Hoje, basta ver o telemóvel, ou abrir o computador para ler o Mundo em 5 minutos. Nas sociedades cada vez mais em rede, como preconizou Manuel Castells, o Global é acessível em qualquer lugar, o Local ganha dimensão global, torna-se até, viral, especialmente se tiver potencial para indignar, chocar ou impressionar.

Mas por muitas notícias que tenhamos lido, com histórias, horrores e desgraças que se repetem mudando apenas a data e o local (alguma vez aprenderemos?), há sempre algumas que nunca nos deixam indiferentes. São murros no estômago, que nos deixam sem fôlego durante horas, palavras que nos implantam imagens no cérebro.

Imagens que ficam.

Que incomodam.

Moem.

Um grupo de crianças, numa rua de Jenin, na Cisjordânia, observa os soldados israelitas que partem, como tantas vezes, apenas para regressar num dos dias seguintes. Passa um jipe. Um outro. Um terceiro, para. Um soldado desce e dispara sobre um menino que, no meio de um grupo de outras crianças, fazia um sinal de vitória com os dedos, numa rua não interditada pelo exército israelita.

Tinha oito anos. Chamava-se Adam Al Ghul.

O irmão, Bahaa, descreveu os instantes seguintes, relatados por Antonio Pita do El País: “Foi natural agarrar o meu irmão. Não sei como o fiz, mas foi um pesadelo. Via os seus olhos abertos, enquanto a alma saía do seu corpo. Ainda não consigo acreditar no que se passou”.

A menos de 15 metros, um outro jovem de quinze anos, Basil Abu Al Wafa, arrastava o seu corpo, enquanto outras crianças e adolescentes fugiam. Foi baleado. Levantou o braço e pediu ajuda. Acabou por se esvair ali.

A morte destas crianças não diminui o horror dos ataques do Hamas de 7 de outubro. Pelo contrário, aumenta-o.

O pai de uma destas crianças, não quer tapar os buracos das balas nem lavar o sangue do seu filho do chão e das paredes, “o sangue dos mártires é uma bênção” diz do alto da sua dor. O pai da outra, médico tentou socorrer a outra sem ter reparado no corpo inanimado do seu filho.

Não se pode obter paz e segurança gerando insegurança e desespero num povo inteiro. Tal como a vingança não é o caminho para a justiça, a guerra não é o remédio ou o caminho para a paz.

Esta semana, aos 100 anos, morreu Henry Kissinger, cientista político, uma das pessoas mais influentes na política internacional da segunda metade do século XX. Apesar de ser da chamada corrente realista e defensor da influência dos Estados Unidos, ou talvez por isso, alertava para a fragilidade de um poder hegemónico “às vezes podemos ser tentados em ver o nosso poder como uma autorização para impor as nossas preferências” e acrescentava “Confiar excessivamente no nosso poder e a insistência na nossa virtude, pode acabar por corromper esses nossos mesmos valores em nome dos quais é conduzida a nossa política”.

Tinha oito anos e o nome do primeiro homem bíblico, Adam.

Morreu em nome de que valores?

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