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Artigo de Opinião

silviamariamata@gmail.com

5/04/2026 03:30

O Ti Soisa é a minha origem, o mais longe que eu sei de mim. O Ti Soisa é o meu avô materno, na realidade, o avô Joaquim de Sousa, aquele que aparece na minha certidão de nascimento. Hoje, a minha prosa é toda para aquela personalidade que conheci apenas de fotografia a preto e branco, um homem de estatura mediana e com uns ricos bigodes. Há retratos dele por aí de jarro de vinho na mão sentado, muito vaidoso, numa banca entre as flores da sua casa com a grande família à volta. Herdei estas preciosidades da tia Elvira e guardo-as como um tesouro. Só sei de meu avô daquilo que ouvi minha mãe e minhas tias dizerem e claro, meus primos mais velhos também me contaram histórias cómicas e trágicas deste avô com fama de reles, mas de sonhador. Esta do “sonhador” foi a tia Elvira que me contou, por o Ti Soisa, mesmo na hora da morte, falar de projetos que eram precisos concretizar, como paredes para segurar os nossos terrenos no alto destas serras sem fim e trabalhos que eram para os moços fazerem, que mais dia menos dia vinha o Inverno e as levadas tinham de estar limpas e à roda da casa também, para a invernaria poder correr livre por aí abaixo sem empecilhos até ao ribeiro - “O 1º da agosto é o 1º do inverno” – ditos do Ti Soisa, tantas vezes repetidos por minha mãe. Uma história que meu primo Ivo, que Deus lhe dê o céu, me contou foi a de um chapéu de palha que o avô lhe ofereceu. “Ah Ivo, onde anda o chapéu que o avô te deu?” - perguntou o velho. “Ah avô, por causa de Jajorge que começou a gozar comigo que eu tinha um penico na cabeça, eu peguei lume ao chapéu.” Foi então que o avô lhe largou umas cracadas na cabeça com o bordão que o crianço viu estrelas. Há também uma parte carinhosa e humana neste Ti Soisa reles, pois alguns vizinhos mais chegados tratavam-no por “o Soisinha”, que é um sufixozinho de aconchego. Não o conheci, mas é como se soubesse tudo dele ou pudesse inventá-lo na perfeição.

O Ti Soisa nasceu em Santo António da Serra, no sítio do Arrebentão, quem vai pela Ribeira de Machico fora. A tia Elvira levou-me a ver a casa de pedra e colmo onde ele veio a este mundo em 1889. E mais conheci as primas mudas que viviam ao lado, numa casinha tão pobre e tão rica de flores e de limpeza. Elas, na sua mudez, ofereceram galhinhos de segurelha à tia Elvira e disseram por gestos, olhando para o céu e fazendo menções com as mãos – não sei como a tia Elvira percebeu aquilo - que essa planta tinha de ser transplantada, quando viessem as primeiras chuvas de outono. O avô na juventude meteu-se por aí abaixo, talvez pelo lado do Poiso, e veio bater à casa do nosso bisavô – não lhe sei o nome e talvez nenhuma prima o saiba. Depois disso, é tudo a eito, apaixonou-se pela única filha do patrão e daí nasceu a enxurrada de filhos, que graças a Deus, vieram para provar que com pouco se faz muito. O avô foi capaz de amar estas paragens por aqui, aumentar e cuidar da propriedade, como o bom servo de “A parábola dos Talentos”, em São Mateus. E coração de ouro, deixou nas mãos das suas irmãs a sua herança por aquelas serranias em Sto António da Serra por elas, mulheres únicas, terem cuidado dos seus paizinhos já velhinhos, com esmero e carinho.

Na casa do avô, cheia de gente, família e vizinhos, sempre bem-vindos, a avó estendia grandes toalhas em cima da mesa e entornava a panela com comer da fazenda, batatas, semilhas, feijão, massarocas, inhame, o que houvesse e do alto da parede do terreiro, juntava mais gente “Olha pequeno, anda aqui para eu te dar uma semilhinha” e matava a fome aos crianços mais descalços das redondezas.

O que ninguém sabe é que há noites de luar em que o Soisinha, servo e senhor, anda por aí a subir e a descer, senta-se na pedra grande, o bordão ao lado, os olhos de lince fiscalizam tudo, finalmente, olham as estrelas, e se choram, não sei, mas lá que há um bordão a zunir como o vento, lá isso há...

Sílvia Mata escreve ao domingo de 4 em 4 semanas.

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