MADEIRA Meteorologia

Artigo de Opinião

Antropóloga / Investigadora

2/04/2026 07:45

Dizem que quem nasce e vive numa ilha, tem o horizonte desenhado de forma diferente. O mar não é um limite, mas um ponto de partida; e a distância para o continente não é um esquecimento, mas o berço de uma identidade própria. Na Madeira, essa geografia esculpida a lombas e levadas moldou um povo resiliente.

Foi há precisamente meio século que esse mesmo povo decidiu deixar de ser apenas gerido para passar a ser, verdadeiramente, senhor do seu próprio destino.

Cinquenta anos de Autonomia! Meio século desde que a Constituição de 1976 e as primeiras eleições regionais consagraram aquilo que não era um capricho, mas um direito de quem conhece a sua terra.

Olhar para a Madeira de hoje e recuar cinco décadas é fazer uma viagem que desafia a velocidade do tempo. Onde antes havia caminhos de cabras e travessias penosas por estradas que desafiavam o abismo, hoje há túneis que cosem a ilha de ponta a ponta e a aproximam. Onde outrora imperava o analfabetismo e a partida forçada rumo à Venezuela, à África do Sul como única rota de fuga à pobreza, hoje erguem-se escolas, polos tecnológicos e uma universidade que fixa talento e fura o fado da insularidade.

A Autonomia madeirense, personificada ao longo das décadas por figuras carismáticas, amadas por uns e contestadas por outros, mas inegavelmente determinantes e lutadoras pela mesma causa comum! Falo de Autonomistas de punho firme — de Alberto João Jardim, Rui Nepomuceno, Vicente Jorge Silva, António Aragão, António Loja, Emanuel Rodrigues, entre muitos, muitos outros — homens que deram tanto de si, que lutaram, construíram e marcaram o rumo da nossa terra, e a quem devemos reconhecimento pelo legado que hoje nos permite ser quem somos!

A Autonomia fez-se daquela teimosia tipicamente insular de responder ao centralismo de Lisboa com a mesma força com que as ondas fustigam os calhaus da praia Formosa.

”O Terreiro do Paço não percebe”, dizia-se. E muitas vezes não percebia mesmo, porque só compreende verdadeiramente quem vive a realidade no terreno. Era preciso calçar as botas de vilão para exigir hospitais, portos transitáveis e a capacidade de gerir os próprios impostos para equilibrar a balança da ultraperiferia.

Nestes cinquenta anos, o madeirense deixou de ser o parente remediado das “ilhas adjacentes” para se assumir como cidadão pleno de uma região ultraperiférica da Europa, com orgulho da sua terra, do seu sotaque cantado e das suas tradições.

Claro que nem tudo são águas calmas. Ao celebrarmos estas bodas de ouro, os desafios mudaram de forma, mas mantêm o mesmo peso. São muitos os caminhos que ainda se impõem e que exigem a mesma audácia, determinação e visão de outrora.

A Autonomia não é uma estátua de bronze esquecida numa praça do Funchal; é um compromisso a todos os madeirenses. Não pertence a um partido, a um líder ou a uma época. Pertence a quem nela vive. Ao soprarmos as cinquenta velas deste estatuto que revolucionou o arquipélago, percebemos que o albatroz madeirense aprendeu a voar sozinho e a planar sobre as tempestades do Atlântico.

Brindemos não apenas esta data, mas também a todos os Autonomistas, sobretudo aqueles que, com visão, coragem e sacrifício, trabalharam incansavelmente para que a nossa ilha fosse hoje a terra afirmada, digna e orgulhosa que conhecemos!

É nosso dever honrar e preservar o legado destes Autonomistas, dando continuidade à sua luta e assegurando que a Autonomia da Madeira — a eterna pérola do Atlântico — permaneça viva, forte e nas mãos de quem nela acredita!

OPINIÃO EM DESTAQUE
Investigador na área da Educação
2/04/2026 07:40

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