Ele era um tipo jovem, ainda na casa dos 30 anos, mas estava a atravessar um período em que não sabia a quantas andava, todos os dias bêbado, sempre bêbado, por causa de um desgosto de amor, ou melhor, para ser mais claro e objetivo, por causa do par de cornos que a mulher lhe pusera de repente, sem mais nem menos, de modo que o gajo, coitado, apanhado de surpresa, atordoado com a traição, lixado por nunca ter reparado em nada, nenhum sinal, nenhuma suspeita, deu em beber todos os dias e todos os dias acordava com uma ressaca brutal, a morrer de tristeza e infelicidade.
Ainda por cima, a mulher tinha-o deixado no decurso da Semana Santa, no ano anterior, ou há dois anos – ele já não sabia em que ano tinha sido –, e isso fazia-o sentir-se um Cristo na Terra, condenado a sofrer, a carregar a cruz, a morrer todos os dias pregado nela.
– Estás a anular-te! – Diziam-lhe os amigos. – Tu és novo e inteligente. Não te anules. Tens tanto para dar.
Mas ele não parava de beber, pensando que isso lhe faria esquecer a causa da tristeza, pensando também que isso o tornaria triste sem causa, simplesmente triste.
– Em breve serei apenas um homem triste – dizia ele e os amigos ficavam preocupados, sobretudo quando assistiam ao monólogo subsequente, com ele a falar como se estivesse sozinho, a voz embriagada, pastosa, ele a dizer:
– Nunca pensei que uma mulher fosse capaz de me arrastar para um beco tão merdoso. Nunca considerei que isto fosse possível. Já não consigo erguer-me, perdi a confiança, estou cheio de nojo e inutilidade e fico arruinado com a felicidade dos outros. É verdade. Estou cheio de ódio e rancor. Aquela mulher desgraçou-me [e adjetivava-a com uma série de palavrões, num crescendo de insultos de cortar à faca]. Não sou capaz de reagir, porra!
Era sempre assim.
Os amigos já temiam o pior. Temiam por ele e pelo mal que poderia fazer à mulher, mas não o conseguiam tirar do caminho do álcool e da tristeza. Ele bebia, bebia sem parar e portava-se mal quando o convidavam para jantar, ou para um pequeno convívio, ou para uma festa. Dizia disparates atrás de disparates, partia copos e pratos e garrafas, cuspia cinismo e ressentimento, soltava gargalhadas alucinadas, chorava como uma criança, ficava a dormir no sofá, no jardim, na escadaria do prédio.
– Não tenho nada para dar – dizia ele. – Nem sequer vergonha.
Um dia, quando se deslocava de um bar para outro no centro da cidade, avistou um pequeno dado no chão com o número 1 virado para cima. O dado era verde e o furo correspondente ao número era branco. Agachou-se e levou-o consigo. Mais tarde, quando chegou a casa, já de madrugada, pegou no dado e apostou no número 2 para beber mais um uísque. Lançou o dado em cima do tampo de fórmica da mesa da cozinha e saiu o número 2.
– É o dado do meu destino – disse ele.
Bebeu e apostou mais um uísque no mesmo número.
Saiu 5 e ele foi dormir.
A partir daí passou a andar com o dado no bolso, como um amuleto, e apostava sempre no número 2 para beber. Foi assim que, paulatinamente, perdeu o hábito do álcool, porque quase nunca ganhava, até que deixou mesmo de beber. Num instante, subiu dois níveis de remuneração e de responsabilidade no escritório e também começou a andar com uma colega de trabalho, uma tipa mais velha e divorciada, e de tanto andar com ela começou a amá-la e de tanto amá-la começou a ser feliz outra vez.
Anos mais tarde, ao dobrar uma esquina, quando ia a caminho do parque de estacionamento após um dia de trabalho extenuante, deparou-se com a ex-mulher, que já não via desde a separação. Na verdade, continuavam a ser marido e mulher porque não tinham formalizado o divórcio. Ela estava com péssimo aspeto e contou-lhe que andava perdida, a mãe tinha morrido, o parceiro tinha-a deixado, vivia sozinha, não tinha emprego certo. Depois, suspirou fundo. Quase ficou bonita outra vez e disse, como se nada tivesse acontecido:
– Vamos tomar um copo.
Ele meteu a mão no bolso e agarrou o dado com força. Rodou-o entre os dedos. Parou e pensou:
– Que número terá saído?