Nunca estivemos tão conectados, e, na verdade, nunca foi tão importante aprender a desligar. Para muitas crianças e jovens, o mundo digital é um espaço de pertença, distração, validação e, por vezes, até refúgio. No entanto, quando o uso da tecnologia deixa de ser equilibrado e passa a ocupar um lugar central e desregulado na vida quotidiana, podem surgir comportamentos de risco associados às chamadas dependências sem substância, como o uso problemático da internet, o gaming e/ou o gambling.
Foi neste contexto que, em 2025, nasceu o Projeto (DES)Conectar, promovido pela Direção Regional de Saúde, através da Unidade Operacional de Intervenção em Comportamentos Aditivos e Dependências. Trata-se de uma intervenção de prevenção seletiva dirigida às Casas de Acolhimento Residencial da Região Autónoma da Madeira, com um duplo foco: capacitar os profissionais e sensibilizar as crianças e jovens.
Sabemos que as tecnologias apresentam inúmeras potencialidades. Contudo, o uso precoce e excessivo pode comprometer o desenvolvimento cognitivo, emocional e social, sobretudo em contextos de maior vulnerabilidade. Assim, o (DES)Conectar procura intervir antes que o problema se instale, promovendo literacia digital, autorregulação e um uso mais equilibrado da tecnologia.
A intervenção inicia-se junto das equipas educativas e técnicas das casas de acolhimento. Através de ações de formação, reflexão sobre casos práticos e disponibilização de materiais pedagógicos, os profissionais são capacitados para identificar sinais de alerta, compreender fatores de risco e de proteção e implementar estratégias preventivas no quotidiano da casa de acolhimento. Mais do que controlar comportamentos, pretende-se criar contextos educativos consistentes, conscientes e protetores.
Paralelamente, o projeto desenvolve sessões com as crianças e jovens residentes, promovendo espaços seguros de diálogo e reflexão. Ao longo de oito sessões lúdico-preventivas, são trabalhadas competências pessoais e sociais fundamentais, como a comunicação, a empatia, o pensamento crítico, a assertividade, a gestão emocional, a gestão de tempo, a responsabilidade, a tomada de decisão e a autoestima. Abordam-se ainda temas como as redes sociais, a comparação social, a influência dos pares, o cyberbullying, os mecanismos de recompensa associados ao gaming e ao gambling, bem como os respetivos sinais de alerta.
O objetivo não é demonizar a tecnologia. Pelo contrário, pretende-se ajudar as crianças e jovens a utilizá-la de forma consciente, segura e equilibrada. Porque prevenir não é proibir, é capacitar.
O (DES)Conectar convida, assim, a uma mudança de paradigma: do uso automático ao uso mais consciente; do tempo excessivo nos ecrãs para a ligação presencial com o outro; da impulsividade para a autorregulação. Num contexto como o acolhimento residencial, onde as relações, os limites e o bem-estar emocional assumem um papel central, esta intervenção torna-se ainda mais significativa.
Desconectar, neste projeto, não significa afastar-se do digital. Significa, acima de tudo, voltar a conectar-se consigo próprio, com os outros e com escolhas mais conscientes. Porque, num mundo cada vez mais tecnológico, educar para o equilíbrio é também uma forma de cuidar.