Recentemente, vimos a comunicação social portuguesa tratar um episódio de racismo como se fosse apenas mais um lance polémico de um jogo de futebol, felizmente pudemos assistir à comunicação social internacional, longe deste clubismo saloio, falar do essencial. Discutiu-se o resultado, a tática, o árbitro. Falou-se menos do essencial: a dignidade humana. Como se um marcador pudesse ser mais importante do que um grito de ódio. Como se um ponto na tabela valesse mais do que a dor de alguém. Pior, alguém dizer algo como: “o nosso melhor jogador é preto”, semelhante ao “até temos um amigo”, concluindo, logo não se pode ser racista. Quanta provação teve de fazer esse jogador para mostrar que era melhor que o outro?
Mas a verdade — e custa dizê-lo — é que isto não é um caso isolado. É um espelho. Um espelho da nossa sociedade. Vivemos demasiado fechados no nosso pequeno mundo, no nosso clube, na nossa razão, na nossa narrativa. Olhamos para o nosso umbigo e esquecemo-nos de que o outro também sente, também sangra, também tem medo.
Pergunto: alguém aceita que o clubismo justifica o insulto? Que a forma como se festeja um golo legitima a humilhação? Que uma traição explica uma agressão? Que uma roupa explica uma violação? Que uma criança mal-comportada merece exclusão e não educação inclusiva? Que alguém “teve o que mereceu”? Estas frases repetem-se como ecos de uma idade das trevas que julgávamos ultrapassada — mas que, afinal, apenas mudou de cenário.
Quando um resultado desportivo, uma nota de exame ou uma avaliação valem mais do que a empatia, alguma coisa está profundamente errada. Quando a vitória é celebrada e a humilhação relativizada, significa que ainda não aprendemos o essencial: os valores não são negociáveis.
Quando Vinícius Júnior se levanta e diz “basta”, não está apenas a defender-se. Está a lembrar-nos que a civilização começa quando alguém recusa ser desumanizado. O combate ao racismo não é um gesto simbólico. É um teste à nossa maturidade coletiva.
E o racismo é apenas uma das faces da exclusão. Há outras, ainda mais silenciosas.
Quando uma criança surda se levanta na sala de aula para dizer “não entendi, mas quero entender”, ela não está a pedir privilégio — está a pedir inclusão.
Quando uma criança cega aprende a olhar o mundo através dos sons, está a ensinar-nos que existem outras formas de olhar.
Quando alguém numa cadeira de rodas insiste em circular num espaço que não foi pensado para ela, está a afirmar: “eu também pertenço aqui”.
Quando uma pessoa com doença mental enfrenta fantasmas invisíveis para nós, mas reais para ela, está a travar batalhas que muitos nunca teriam coragem de enfrentar.
Quando uma criança que “se porta mal” se levanta todos os dias, talvez esteja apenas a pedir aquilo que nem sempre sabemos dar: compreensão.
O nosso maior problema não é a diferença. É a incapacidade de calçar os sapatos do outro — ou, pelo menos, de caminhar um metro descalço na sua estrada. Não era connosco. Não era o nosso filho. Não era o nosso pai. Não era a nossa mãe.
Até ao dia em que o é.