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Artigo de Opinião

DO FIM AO INFINITO

29/10/2021 08:01

Esta noite sonhei que não conseguia escrever e lembrei-me de Esbeleléu. Um dia, um tipo aproximou-se do guiché numa estação de comboios e pediu um bilhete para Esbeleléu. O funcionário mostrou-se perplexo, como se não tivesse atremado bem a coisa.

- Como? - Perguntou.

- Um bilhete para Esbeleléu - insistiu o indivíduo.

O funcionário ficou deveras espantado e pôs-se a folhear papeis e a bater teclas no computador, com a testa franzida e semblante carregado, a ver se encontrava alguma estação ou sítio ou apeadeiro na rota dos comboios com aquela designação, mas não encontrou nada.

Encolheu os ombros e disse:

- Não há bilhete para Esbeleléu.

O indivíduo agradeceu, afastou-se do guiché e foi ter com um amigo, que esperava ao fundo. Era um tipo humilde, muito simples, de olhos brilhantes e sorriso inocente, mãos atrás das costas e ar de quem tinha acabado de chegar ao mundo, sem maldade, sem idade.

Encarou-o e disse:

- Esbeleléu, não há bilhete para ti.

No meu sonho, havia um foco de luz sobre uma folha de papel em branco e eu estava na penumbra a olhar para ela. Sentia o tempo passar - tiquetaque tiquetaque, como ossos a estalar - e estava cada vez mais angustiado porque não tinha nada para escrever, nada para dizer, e, contudo, era suposto fazê-lo, havia uma obrigação nesse sentido, eu tinha de cumprir um horário e contar uma história, qualquer coisa que fosse para além do Orçamento do Estado e das alterações climáticas, para além da pandemia e da invernia coletiva das nossas vidas. Porém, tudo me dizia não haver palavras para mim, como se eu fosse Esbeleléu na estação de comboios.

- Duarte, não há palavras para ti.

Então decidi escrever à toa, entre o pensamento e a realidade, na exata medida em que os acontecimentos me tocaram e impressionaram no decurso do dia, a começar pela ratoeira de três buracos que eu armei em casa do meu pai, nas zonas altas, e hoje encontrei com dois murganhos mortos por asfixia, lado a lado, da esquerda para a direita, com o pelo cinzento ainda luzidio, fresco e bonito, o rabo nu e frio, os olhos negros luminosos, e deu-me pena vê-los cadáveres, mas consta que a vida é assim. Todas as histórias acontecem no passado. O presente é o tempo para as decifrar e também para construir outras histórias que iluminem os enigmas de amanhã.

Confuso? Não. Isto é apenas o incómodo de ter visto dois ratinhos mortos logo de manhã, ainda que a sua morte fosse o objetivo de ter armado a ratoeira, enquanto o Tonecas estraçalhava uma lagartixa no quintal. Numa primeira fase, ela conseguiu escapar. Soltou o rabo e fugiu para debaixo de um cântaro de azáleas. O cão ficou entretido com o movimento do rabo, sempre a saltar e a se contorcer. Até o trincou. Mas depois perdeu o interesse, deitou o vaso ao chão e deu cabo da lagartixa.

A vida é assim e eu fiquei a pensar na forma como a beleza do dia se desfaz ante uma simples palavra maldita. Por mais inocente e bem-intencionada que seja, uma só palavra é capaz de destruir o dia perfeito com a mesma força de uma guerra nuclear. E tudo morre.

Porra! O que estou eu para aqui a dizer? Isto não passa de filosofia escangalhada para desengonçados de alta envergadura, gente como eu e o Esbeleléu, uma conversa fiada para passar o tempo e encher o espaço vazio dentro dos sonhos. Uma tontice, é o que é. Não vale nada.

Neste momento, meus amigos, o mais importante é mesmo o Orçamento do Estado, as alterações climáticas, a pandemia e a invernia da nossa existência coletiva. Vou tentar apanhar o comboio para lá e depois digo qualquer coisa sobre o assunto. Contudo, suspeito que não vai haver bilhete para mim…

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