Não tenho memória de um arranque de Ano Novo tão agreste. Mas vou pensar que os maus começos são apenas uma fase passageira e que “tudo está bem quando acaba bem”. De facto, na bolha mediática do dia-a-dia, janeiro tem sido rico em surpresas, umas boazitas, mas outras, francamente más.
Na esfera nacional, as presidenciais marcaram toda a agenda noticiosa. O 18 de janeiro terá de ficar na história da democracia portuguesa, como o dia em que mais de 5,5 milhões de cidadãos cumpriram o seu dever cívico, colocando um X num boletim de voto com catorze candidatos, três dos quais tinham a sua candidatura recusada pelo Tribunal Constitucional. Normalíssimo, segundo a CNE. Afinal, já não é a primeira vez que tal acontece, sendo uma realidade “conhecida do legislador”, dizem eles. Espantoso!
Quanto a resultados, não me pronuncio sobre os mesmos, mas não posso deixar de partilhar a minha convicção que a CNE faria um excelente serviço se reforçasse as suas energias na promoção da literacia democrática, explicando aos eleitores que o voto foi uma conquista (difícil) e que é, simultaneamente, um direito e uma arma poderosíssima ao serviço dos cidadãos. Como qualquer arma, pode causar danos ao próprio e aos outros, devendo, como tal, ser usada com a máxima precaução. Por outras palavras, é um direito sim, que implica da parte de quem o usufrui ter consciência das consequências do seu uso. Votar não se resume à destreza manual de desenhar um X. Por isso, no nosso sistema eleitoral temos um período de reflexão de um dia. Para quê? Para que o leitor possa PENSAR (livre, consciente e responsavelmente) na escolha que irá fazer.
Aliás, basta recuarmos no tempo: celebrou-se esta semana, um annus horribilis do mandato Trump, o que significa que a missa nem vai a metade. Faltam, “apenas e só”, 3 longos anos pela frente. Em Davos, Suíça, o mundo parou para assistir ao espetáculo (circense) de Trump e este não defraudou. Os holofotes estiveram em cima do único homem do planeta detentor de um prémio Nobel em segunda mão (cortesia de Corina Machado, num momento de fraqueza na sua coluna vertebral).
A Europa não tem estado bem. Excessivamente cautelosa e amarrada à prática do “politicamente correto”, a Europa tem sido maltratada e até enxovalhada, circunscrita a um lugar menor dos palcos mundiais que não lhe faz a devida justiça.
Entre os muitos oradores que passaram por Davos, o primeiro-ministro Canadiano referia, num discurso amplamente apreciado a nível internacional, que as potências intermédias devem agir em conjunto, porque “se não estiverem à mesa, estarão na ementa”! É um alerta que faz todo o sentido, complementar a tantos outros, até dos próprios Estados Unidos, como do governador da Florida que ironicamente referiu que devia ter trazido um monte de joelheiras para todos os líderes mundiais, ou até de Emmanuel Macron que utilizou uma narrativa mais ríspida que o habitual, ainda que Trump tenha preferido brincar com os óculos escuros utilizados em Davos. Prioridades!
Sobre aquilo que Trump chama de um “gigantesco pedaço de gelo” para fazer referência à Gronelândia (ainda que, repetidamente, tenha confundido com a Islândia, levando à loucura os estudantes de Geografia), a Europa parece ter acordado para a realidade, mostrando uma postura mais firme, coesa e assertiva. Mas uma vez mais, a palavra de ordem continua a ser – imprevisibilidade. Trump fala de um acordo decorrente da sua reunião com Mark Rutte, Secretário-Geral da NATO, mas este apenas confirmou um princípio de acordo (não é bem a mesma coisa!). Enquanto Trump falou do encontro como um passo decisivo no seu acordo imobiliário/militar, a Europa optou por enfatizar o reforço da aliança defensiva no Ártico. Uma coisa é certa, os dinamarqueses não têm dúvidas: negociar sim (segurança, economia, investimentos estratégicos, etc.) mas nunca a soberania. Assim seja.
Marco Teles escreve à segunda-feira de 4 em 4 semanas.