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Artigo de Opinião

26/02/2026 07:30

Temos de acabar com o conceito de afirmação de masculinidade de que “homem que é homem tem de expor o seu órgão para se afirmar”.

Países evoluídos, têm casas de banho mistas que podem ter, dentro da “casinha”, urinóis e sanitas lado a lado, mas com porta. Há homens e mulheres que gostam de urinar de pé e sentados.

Fechamos as portas das casas de banho públicas às raparigas e não as fechamos aos rapazes. Porquê? Porque é que um menino tem de se expor para fazer xixi ao lado de outros meninos? Ou de homens? Porque é que um pénis é público? Em muitos sítios, o duche também não tem portas.

Fui falar com homens sobre os urinóis e ouvi o quanto o urinol pode ser desagradável: histórias e histórias, algumas aconteceram na infância.

Há rapazes que iam a casa fazer as suas necessidades porque, na escola, não ir ao urinol era ser “medroso” ou “maricas”, quando, na verdade, queriam ter a sua privacidade ou simplesmente defecar.

Há homens que evitam urinóis públicos porque já foram assediados. Ser assediado com o pénis à mostra deve ser ainda mais difícil; o assédio é sempre violento. Outros evitam urinóis porque estes estão em paredes espelhadas que refletem o pénis. “Não querem mostrar e não querem ver.”

Liberdade é também não obrigar a mostrar o que não se quer.

Sabemos que a adolescência é uma fase especial. Por muitas razões, uma delas é a existência de mudanças físicas muito rápidas. Enfrentá-las não é fácil, mas ouvir do grupo de pares referências negativas a características do corpo pode ser ainda mais difícil. Ninguém sabe se é grande ou pequeno até se comparar com os outros ou até alguém o denominar. O corpo deve ser algo privado. O pénis também. Duches e urinóis sem portas facilitam comparações e comentários que podem ser desadequados.

A facilidade em mostrar, ou não, tem a ver com as nossas referências familiares. Há famílias onde os educadores não educam com “portas fechadas”. “Portas abertas”, onde é normal ver os educadores sem roupa. Famílias onde vestir-se ou tomar banho não implica fechar nenhuma porta.

Cada um de nós tem as suas referências familiares. Os meus pais não se despiam à frente dos filhos e educaram-nos a fechar as portas. Mas tinha amigos com referências diferentes, cada educador ao seu modo. Obviamente que os de “porta fechada” têm mais dificuldades em casas de banho e duches sem portas, ao contrário dos outros. Os outros só sofrem quando são gozados ou desvalorizados por alguma característica física. Aqui, nem o hábito da “porta aberta” os impede de sofrer.

Um comentário pode levar a um nome que se torna alcunha e que passa a caracterizar alguém. Racionalmente, é um pormenor insignificante, mas mudou a vida dessa pessoa porque a fez sentir vergonha de si própria.

A educação com “portas fechadas” treina o limite do que é íntimo e do que é público. O corpo sem roupa ou com roupa interior não é para mostrar a todos, mesmo que agora as influencers se vistam nas redes sociais. Fechar as portas é protetor para todos. Nunca vamos poder controlar o que uns dizem aos outros e que sofrimentos isso vai provocar, mas podemos evitar, tornando privadas todas as partes do corpo dos rapazes e das raparigas.

Quem chama nomes tem culpa. Quem ouve fica com vergonha. E isso pode deixar marcas para a vida.

“Ao contrário da culpa, que é o sentimento de ter feito algo errado, a vergonha é o sentimento de ser algo errado. E este ataque à própria identidade pode causar uma depressão profunda e uma ansiedade grave.”

Frase de uma psicoterapeuta na série The Fosters

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