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Artigo de Opinião

Diretor

28/02/2026 13:01

Mais do que a trapalhada na plataforma e nos adiamentos, as alterações aos apoios à mobilidade são agora a mais recente bandeira autonómica contra a Lisboa centralista.

Poucos assuntos, em tão pouco tempo, terão conseguido unir os madeirenses. Da esquerda à direita, do centro aos extremos, dos moderados aos mais radicais, nota-se unanimidade na defesa dos apoios e, mais do que isso, contra aquela visão mesquinha do Estado em olhar para as ilhas com uma folha de cálculo onde sublinha as despesas e ignora os lucros.

O castigo imposto de lá para cá não podia vir em pior altura. Estavam os madeirenses – tal como os açorianos – preparados para a festa das bodas de ouro da Autonomia e eis que Lisboa grita: alto e para o baile!

Essa sobranceria foi notória no rosto e na atitude do líder parlamentar do partido do governo na Assembleia da República. Hugo Soares mandou calar os deputados das regiões autónomas, falou do que não sabe nem sente, mas disse o que queria dizer: que os continentais não devem descontar para os ilhéus irem ao continente.

O que disse, a forma como disse e como impediu que os eleitos das ilhas falassem, mostrou o que de pior tem ainda o Estado quando se arroga ao direito de colocar uns contra os outros.

Aquele triste episódio deixou mal na fotografia os seis deputados do PSD da Madeira e dos Açores, tratados como menores e humilhados quando aplaudidos de pé por colegas de bancada que caucionaram a desconsideração.

Hugo Soares tenta agora fazer de conta que não aconteceu nada. Que foi apenas retórica parlamentar. Que já passou. Que adora a Madeira!

Está enganado. Foi tão grave o que disse como o que impediu de ser dito. Não foi retórica, foi um ataque. E não, não passou! E a Madeira dispensa a sua falsa admiração.

Mas tudo isto tem a vantagem de fazer ver aos mais crentes que o processo autonómico continua a ser uma pedra no sapato de muito centralista, mais ou menos encapotado.

Ainda ontem, no projeto Parlamento na Comunidade, que o JM e a Assembleia levaram à Calheta, foi notória a crítica direta a toda a desconsideração nacional perante as ilhas.

Rubina Leal, a presidente da Assembleia regional, denunciou o “pendor ancestral centralista” que rejeita.

“A luta continua!”, avisou o antigo deputado social-democrata Alfredo Fernandes.

“A luta continua!”, repetiu o atual deputado social-democrata Carlos Teles.

“A Autonomia não é uma tutela”, disse o socialista Gonçalo Velho.

“A Autonomia não é negociável”, atirou Basílio Santos, do JPP.

A atual presidente da Câmara, Doroteia Leça, e o presidente da Assembleia Municipal, Duarte Sumares, alinharam na mesma crítica com palavras diferentes.

O mesmo caminho seguiu o antigo diretor regional de Florestas, Rocha da Silva, e o ex-deputado social-democrata Agostinho Gouveia.

Tudo isto numa manhã que preferiu a crítica ao centralismo do que a exaltação fácil à mudança feita em 50 anos de Autonomia.

Tudo isto mais o que se ouve em qualquer fórum. Tudo isto mais o que se lê em qualquer artigo de opinião. Tudo isto mais o que se vê em centenas de comentários de cara destapada nas redes sociais. E tudo isto mostra uma forma de revolta da Madeira.

Agora fica uma questão: o que vão os madeirenses fazer com este sentido crítico e este orgulho ferido? Vão ser coerentes ou sucumbir às capelinhas políticas? Vão manter o protesto ou acanhar-se perante as palavras mansas dos centralistas que adoram a Madeira da mesma forma que fazem troça da Madeira?

O ensaio de revolta política não pode ser uma moda. Deve ser uma atitude de quem se sente profundamente ofendido.

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