Iniciamos um novo ano e um novo janeiro cheio de objetivos e promessas. E claro que no topo da lista, quase como um ritual, aparece a vontade de “fazer dieta”. Agora como nutricionista, pergunto: quantas vezes já traçamos esse objetivo para o ver desmoronar antes de fevereiro? O problema não é a falta de força de vontade, mas sim a utopia das metas que criamos. Vivemos num mundo que complica o que deveria ser instintivo. Queremos mudar tudo num dia e acabamos por desistir ao terceiro.
Hoje, comer parece uma missão impossível. Se abrirmos uma rede social, o terrorismo nutricional ataca-nos de todos os lados, gerando uma ansiedade brutal. E será que temos de viver permanentemente “em dieta”? A resposta é um redondo não. A dieta tem um princípio e um fim, e o que nós realmente precisamos é de algo que dure a vida inteira. Precisamos de aprender a comer, e não de aprender a passar fome.
A solução passa por simplificar. Precisamos de resgatar o conceito de “comida de verdade”, aquela que os nossos avós reconheceriam: comiam o que a terra dava, respeitavam as épocas e não viviam de pacotes e códigos de barras. Simplificar significa olhar para o prato e ver alimentos e não embalagens. É perceber que a natureza já nos deu tudo o que precisamos e nós é que nos esquecemos de como usar esses recursos!
O segredo é mesmo aprender a comer! A ciência moderna explica-nos, por exemplo, que a ordem pela qual ingerimos os alimentos altera completamente a resposta do nosso corpo. Se começarmos a refeição pela salada ou legumes, passarmos para a proteína e gordura, e só depois comermos os hidratos de carbono, estamos a dar ao nosso metabolismo a oportunidade de processar a energia de forma muito mais estável. Isto evita os picos de açúcar que nos deixam cansados, irritados e com fome pouco tempo depois de termos comido. Não se trata de proibir o arroz, a massa ou o pão, mas de saber combiná-los de forma inteligente.
E esta evolução na forma como olhamos para a comida já se reflete em recentes diretrizes internacionais. A nova pirâmide alimentar dos Estados Unidos, já dá passos largos ao focar na qualidade dos alimentos e na individualidade. É um sinal claro de que a nossa própria Roda dos Alimentos precisa de uma atualização urgente para acompanhar o que a ciência já provou: cada corpo é um corpo, mas a base deve ser sempre os alimentos naturais.
O excesso de informação gera desinformação e ansiedade. Por isso, o meu conselho para este novo ano é que procure ajuda profissional, mas não uma ajuda qualquer. Procure um nutricionista que tenha empatia, que ouça a sua história e que não lhe entregue uma dieta de gaveta. Precisa de alguém que o ensine a comer para a vida, respeitando os seus gostos e a sua rotina.
Mas 2026 pede-nos mais do que apenas uma mudança no prato. Estamos num ano que exige um olhar mais profundo sobre como vivemos. Este deve ser, finalmente, o ano dos recomeços e dos reinícios conscientes em todas as áreas da nossa existência. É o momento de desligar do que não nos faz bem, de silenciar as notificações que nos trazem ansiedade e de nos afastarmos de tudo o que nos consome a energia sem nos dar nada em troca.
Que este ano não seja apenas sobre perder peso, mas sobre ganhar vida. É tempo de lutar por aquilo que realmente nos dá prazer e nos deixa felizes, seja uma caminhada ao pôr do sol ou um projeto antigo que ficou na gaveta. Temos o direito e o dever de procurar a nossa melhor versão, mas sem esquecer a leveza. 2026 é o ano para limparmos os excessos — da despensa, da mente e do coração. Este é o ano. Vamos fazer com que valha a pena?
Carina Teixeira escreve à segunda-feira, de 4 em 4 semanas.