Naquele tempo, quando eu era jovem, belo e imortal, tinha uma amiga mais velha, talvez uns dez anos mais velha, já não me lembro bem, a quem costumava submeter os meus escritos para apreciação. Ela não gostava nada das coisas que eu escrevia e tinha razão, porque eu só escrevia porcarias. Queria ser escritor – coitado de mim –, mas só escrevia porcarias, embora estivesse convencido de que era literatura de alta envergadura, altamente genial.
Há anos que não vejo esta minha amiga, porque ela emigrou, ou, para ser mais poético, partiu e nunca mais voltou. Perdi-lhe o rasto. Contudo, nunca esqueci os seus conselhos literários. Remetiam todos para a importância da simplicidade.
Uma vez, ela ficou toda arrepiada ao ler um dos meus textos, mais ou menos assim:
Uma porta range algures dentro de casa, mas não é devido ao vento, nem às correntes de ar, porque está tudo fechado e aqui não circula gente. Tão pouco pode ser por ação dos mortos, porque estão todos detidos no outro mundo. Por que range, então, a porta? Algo reside naquela porta, tenho a certeza. Se calhar, pensando melhor, a porta não range. Se calhar, a porta respira. A casa tem onze portas e eu não sei qual delas range ou respira. Oiço-a ranger. Oiço-a respirar. Só isso. Ela range – respira – range – respira.
A minha amiga explodiu:
– O que é isto, meu Deus?!
E eu, todo lixado:
– É um retrato da condição humana.
Ela franziu a testa e decidiu contar-me uma história, a melhor história de amor, disse ela, explicando que se tratava, essa sim, de um retrato simples e objetivo da condição humana, ou seja, um exemplo da forma como eu deveria escrever sempre, para sempre. E avançou:
Um rapaz e uma rapariga, que estavam muito apaixonados e viviam juntos há mais de um ano, foram passar férias a São Miguel, nos Açores. Percorreram a ilha de lés a lés e tudo na vida deles parecia infinito, quando, de repente, por causa de uma troca de olhares, o rapaz foi arrebatado por uma açoriana com ar de gazela e decidiu deixar tudo por ela.
A namorada regressou à Madeira sozinha e destroçada.
Entretanto, o rapaz e a açoriana casaram-se e foram passar a lua-de-mel a Tenerife. Percorreram a ilha inteira e tudo na vida deles parecia infinito, quando, de repente, por causa de uma troca de olhares, a açoriana perdeu-se por um canário musculado e deixou o madeirense para trás.
Ele regressou a casa sozinho e destroçado.
A açoriana e o canário estavam muito apaixonados e viviam juntos há mais de um ano, quando decidiram passar uma semana no Sal, em Cabo Verde. Percorreram a ilha de ponta a ponta e tudo na vida deles parecia infinito, mas, de repente, por causa de uma troca de olhares, o canário caiu enfeitiçado por uma cabo-verdiana linda, negra de pele clara e olhos verdes.
A açoriana regressou ao seu arquipélago de bruma sozinha e destroçada.
Em Cabo Verde reinava a felicidade e tudo na vida deles parecia infinito, mas acontece que a cabo-verdiana tinha uma tia que vivia na África do Sul, uma tia muito estimada, e essa tia ficou doente, às portas da morte, pelo que viajou de urgência para Joanesburgo, para estar ao seu lado na hora da partida, deixando o canário em casa a tratar dos preparativos para o casamento...
A minha amiga sorriu e disse:
– Se souberes escrever esta história como deve ser, tens aí a tua porta que range e respira.
Mas, naquele tempo, eu era mesmo jovem, belo e imortal. Não compreendia o valor da simplicidade e aquilo pareceu-me material de telenovela, uma telenovela de má qualidade cujo título podia ser ‘As Ilhas Afortunadas’. De modo que continuei a produzir a minha literatura de alta envergadura, altamente genial. Por exemplo, isto:
Um tipo vagueia na cidade. É muito fácil um tipo vaguear na cidade. Entra nos bares e bebe à toa. Olha para os outros, cobiça as mulheres. É uma situação muito vulgar. No mundo, as situações nunca erram e são sempre muito vulgares. O tipo encara as ruas, os prédios, os carros que passam acelerados, os carros parados e sente que falta ar no ar da vida. A vida não passa de um leve sopro. Por mais palavras que se diga, por mais palavras que se cale, por mais descobertas que se faça, por mais ignorância que se beba, por mais repetição que aconteça, a vida não passa de um sopro, um leve sopro num corpo onde falta sempre ar.