Há ironias que fariam Orwell corar de inveja. O racismo, essa coisa pesada, estrutural, histórica, viscosa, que moldou sociedades, economias e destinos humanos, conseguiu, em pleno século XXI, ser reduzido a um sprint de 12 segundos entre uma alegação e um trending topic.
Hoje, o racismo já não é, necessariamente, uma convicção, uma visão do mundo, uma prática reiterada de exclusão ou desprezo. Não precisa de se manifestar em atos consistentes, em padrões de comportamento, em escolhas de vida. Basta uma palavra. Ou melhor: basta a perceção de uma palavra. De preferência em campo aberto, com câmaras por perto e o algoritmo a postos. O novo racismo é instantâneo, portátil e, acima de tudo, altamente rentável em termos de indignação.
Vivemos a era do racismo performativo: não o que estrutura, mas o que viraliza. Não o que se prova, mas o que se sente. E, sobretudo, o que encaixa na narrativa do momento.
A mecânica é simples. Alguém acusa. Outro, nega. A prova é inexistente ou inconclusiva, um detalhe irrelevante. A realidade é imediatamente reinterpretada à luz da sensibilidade dominante. A biografia do acusado, os seus comportamentos prévios, o seu trato pessoal, a sua história relacional? Ruído. O contexto? Supérfluo. O contraditório? Inconveniente.
O que conta é a utilidade simbólica do caso. O caso deixa de ser uma procura de verdade e passa a ser um exercício de alinhamento moral. Não se pergunta o que aconteceu; pergunta-se o que deve ser dito sobre o que aconteceu. A questão já não é factual, mas reputacional. Quem hesita perde terreno, quem pondera parece suspeito, quem duvida é rapidamente catalogado. A prudência, essa virtude clássica do juízo, tornou-se um luxo incompatível com o ritmo do escândalo. E assim, a pressão não nasce da evidência, mas da necessidade de mostrar que se reagiu.
Porque o racismo, que deveria ser combatido com rigor moral e probatório, tornou-se também moeda de validação social. Uma denúncia bem colocada vale capital reputacional. Uma condenação rápida sinaliza virtude institucional. E a dúvida, esse velho pilar do Estado de Direito, passou a ser vista como cumplicidade.
Chegámos ao ponto curioso em que alguém pode ser rotulado de racista sem que a sua vida, escolhas ou relações revelem qualquer traço consistente dessa suposta convicção. Não interessa. A identidade moral já foi atribuída. E, como em todo bom tribunal de praça pública, a sentença precede o julgamento.
Mais curioso ainda é o surgimento de uma assimetria silenciosa. O racismo é hoje tratado como uma categoria unidirecional, com pratos de balança que raramente pesam do mesmo modo. Certas expressões são consideradas absolutamente intoleráveis num sentido, mas banalizadas noutro. Certas denúncias geram comoção imediata; outras, no máximo, um encolher de ombros. A igualdade formal cede lugar à utilidade narrativa.
E no meio disto, as instituições, essas criaturas frágeis que vivem de patrocínios, audiências e legitimidade pública, aprendem rapidamente a ler o vento. Não decidem apenas com base no mérito; decidem também com base no risco. O risco de parecerem inativas, insensíveis, desalinhadas com o espírito do tempo.
A presunção de inocência continua escrita nos regulamentos. Mas, na prática, compete agora com a presunção de indignação.
Nada disto diminui a gravidade do racismo real, aquele que discrimina, exclui, limita oportunidades e dignidade. Pelo contrário: banalizá-lo em episódios instantâneos, descontextualizados e simbólicos é uma forma eficaz de o esvaziar. Ao transformar tudo em racismo, corre-se o risco de que nada o seja verdadeiramente.
Talvez a maior ironia seja esta: na ânsia de demonstrar intolerância absoluta ao racismo, criámos um ecossistema que dispensa profundidade, ignora contexto e premia a velocidade sobre a verdade. E assim, uma das mais sérias chagas morais da história humana passou a caber, confortavelmente, no espaço de um tweet.
E é bom que nos lembremos disto: no fim, as redes não existem. Os movimentos não existem. As instituições não existem. Existem pessoas. Pessoas que clicam, partilham, condenam e exigem sem saber, e que, ainda assim, dormem tranquilas com a convicção de que fizeram justiça.