O estaleiro municipal da Marinha Grande transformou-se hoje num centro de doação e recolha de materiais de construção, sobretudo telhas e lonas, com filas permanentes de pessoas que perderam telhados e janelas no vendaval da passada quarta-feira.
Ao quinto dia após a tempestade, é debaixo de chuva que os moradores da Marinha Grande, distrito de Leiria, escolhem o modelo de telha que precisam e levam para casa lonas para cobrir o que o vento levou.
A coordenar esta operação vestida de impermeável e galochas e sem guarda-chuva, Marina Freitas, chefe de divisão administrativa e de recursos humanos da autarquia não tem mãos a medir: ora houve queixas da população por ainda não ter água, ora orienta as pessoas para a fila correta.
“Estamos a dar às pessoas o que desde ontem [sábado] nos começou a chegar de todo o país”, disse, emocionando-se.
Ao estaleiro chegam ainda voluntários que entregam pás, vassouras, baldes, luvas ou água engarrafada. O estaleiro serve ainda de cantina para todos os trabalhadores e voluntários.
Na fila para a recolha de lona, Valentina Costa, de 54 anos, é desempregada de longa duração e vive num antigo armazém por não ter dinheiro para alugar uma casa. O armazém foi uma fábrica de sacos de plástico que pertenceu ao marido e que foi à falência por altura da pandemia de covid-19 (2020-2022).
“Fiquei sem telhado na zona que cobria a cozinha e o quarto, chove na minha cama” e é por isso que vem com o marido em busca lona.
Também na mesma fila, Vanda Ferreira, 48 anos, disse que ficou sem telhado na cozinha e casa de banho, além de lhe ter caído um muro. Sabendo dos avisos meteorológicas que preveem continuação de chuva, veio em busca de lona para remendar o telhado.
Vanda Ferreira estava na noite do temporal que assolou esta região centro do país a trabalhar numa fábrica no turno entre as 21:00 e as 05:00.
Relatou à Lusa o que aconteceu: “Primeiro a luz falhou uma vez e voltou, depois falhou uma segunda vez, levantou-se o vento e o portão caiu. A seguir os vidros partiram-se. Fomos todos para dentro da sala de isolamento”, criada na altura da pandemia.
Os 35 trabalhadores desse turno da noite acabaram por sair da fábrica a pé às 06:00 “rente à linha do comboio [linha do Oeste] o único sítio que àquela hora não estava obstruído. A zona industrial está muito destruída”, disse.
A viver num quarto andar no centro da Marinha Grande, Tânia Máximo e o marido viveram “um cenário de filme”.
“O vento entrou pela lareira, arrancou os estores e as janelas, as cadeiras voaram, conseguimos abrigar-nos num quarto. Parecia uma cena de um filme, um horror”, relatou.
Tânia Máximo está na fila para levar lona para casa para tapar as janelas, mas disse ainda que além dela a filha tem um restaurante na praia da Vieira, no mesmo concelho, e “ficou sem nada”.
A passagem da depressão Kristin por Portugal continental, na quarta-feira, causou pelo menos cinco mortos, segundo a Proteção Civil, vários feridos e desalojados. A Câmara da Marinha Grande contabiliza ainda uma outra vítima mortal no concelho.
No sábado, outros dois homens morreram ao caírem de um telhado que estavam a reparar, um no concelho da Batalha e outro em Alcobaça. Na madrugada de domingo, um homem morreu no concelho de Leiria por intoxicação com monóxido de carbono com origem num gerador.
Quedas de árvores e de estruturas, corte ou o condicionamento de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal.
Leiria, por onde a depressão entrou no território, Coimbra e Santarém são os distritos que registam mais estragos.
O Governo decretou situação de calamidade, que foi prolongada este domingo, após uma reunião do Conselho de Ministros, até dia 08 de fevereiro.