O título deste artigo ouvi-o da boca de Jane Fonda.
Todos os dias ouvimos o sim como uma frase completa, mas o mesmo não acontece com o não.
Depois de um não, surge quase sempre uma frase explicativa ou justificativa, fazendo dele uma frase incompleta. Jane tem razão: o não é uma frase completa e temos de assumir isso.
A nossa capacidade para perceber o não começa no controlo dos esfíncteres (reter e eliminar urina e fezes), por volta dos 2 aos 3 anos de idade.
Depois desta fase, a criança está preparada para o treino do não: “Não podes fazer.”
Todo este processo implica um grande envolvimento dos educadores, tanto no controlo dos esfíncteres como no treino do não.
Observando alguns casos, vejo muitos pais a justificar nãos a crianças muito pequenas: “Não podes, porque...”
Obviamente que um jovem gosta de saber a razão do não, porque não concorda com ele. No entanto, uma criança precisa mesmo de saber a razão?
Ao justificar, estamos a passar a ideia errada de que o não precisa de explicação e estamos também a preparar menos as crianças, futuros jovens, para os “nãos” da vida.
É preciso voltar a treinar o não: em nós e nos que nos rodeiam.
Porque dizer não é tão difícil como aceitar um não.
Muitas vezes, não dizer não está relacionado com as nossas fragilidades e com o medo de que os outros deixem de gostar de nós. Isso também acontece na relação com os nossos filhos.
Será que os pais “bonzinhos” são mais amados? Os pais “bonzinhos” são mais inseguros. Ter a capacidade de frustrar é essencial, é educar. É no não que as crianças começam a perceber as hierarquias. O respeito existe com o conhecimento das hierarquias.
Os adultos são superiores às crianças, mas há crianças que tratam os adultos como seus pares. Algo extremamente perigoso.
Socializar implica respeito pelas hierarquias. O pai, a mãe, o professor, o chefe no futuro...
Obviamente que os filhos fazem o bom trabalho de testar constantemente os limites. Porém, estar presente/firme no confronto é o verdadeiro papel dos educadores.
É muito mais fácil colocar limites quando, por detrás, existe uma relação de afeto bem construída.
Educar obrigada a não ser “bonzinhos”. Por outro lado, não educar torna-nos negligentes.
Costumo dizer a alguns adolescentes:
“Que os teus limites não venham a ser colocados, com sucesso, por um pai chamado Sr. Dr. Juiz.” Infelizmente, isso acontece. A nós e aos nossos.
Aceitar o não reduz a agressividade.
A base da violência surge numa relação entre duas pessoas, mesmo que estranhas, em que uma age violentamente sobre a outra porque não obtém a resposta que deseja.
Em vez de se frustrar, ataca.
A violência existe em todos os tipos de relação: amorosas, filio parental, familiares, de amizade ou entre estranhos.
Hoje ouvimos muitas vezes: “Crime por motivos fúteis.” Matou por causa de um objeto? A base é quase sempre a mesma: a não aceitação do não. Porque o não nunca foi sentido como uma frase completa.
Em silêncio fica quem não conseguiu defender-se: a mulher, o pai, a mãe, o filho, o amigo, o estranho...
“Quero, posso e mando” parece ser a postura de muitos e, por vezes, erradamente, também de alguns filhos. Educar e educar-nos não é fácil, mas podemos todos tentar reaprender que um não é uma frase completa, em qualquer contexto.
Não.
Sem justificações, como defende a Jane Fonda.
No livro Homo Deus, Yuval Noah Harari escreve:
“A história começou quando os homens inventaram os deuses e terminará quando os homens se transformarem em deuses.”