Como esperado estamos na segunda volta das eleições presidenciais. Já era espectável, com quase uma equipa de rugby candidata na primeira volta, a segunda dose era uma inevitabilidade. Tenho para mim que nenhum candidato, de qualquer um dos quadrantes políticos representados (e eram muitos), era o desejado, era o predestinado para o mais alto cargo da nação. Claro que teorias não faltaram e os doutos comentadores televisivos bem que esgrimiram argumentos para escalpelizar as aritméticas eleitorais, com filigranas e teorias rebuscadas... lérias, banha de cobra e logro, vamos aos factos e também aos porquês.
1 - Os mais afoitos arautos do comentário político teciam enormidades sobre a normalização de Ventura e do Chega, sem nunca olhar com a atenção devida para a votação de um e de outro. Ventura, na primeira volta das presidenciais alcançou com muita demagogia e cinismo a soma de 1.326.942 votos. O Chega, nas últimas eleições para a Assembleia da República, com a jactância habitual, chegou aos 1.437.881 votos. Afinal, o Chega vale mais do que Ventura. Se fosse uma reportagem do Fernando Pessa, terminaria com um eloquente “E esta hein?”. Entre estas duas eleições, mais de 110 mil portugueses tomaram juízo e fizeram uma opção mais racional, para não dizer mais inteligente, não ouvi ninguém a falar sobre isto, porquê será?
2 - Outro facto, também muito pouco debatido foi a situação dos candidatos do centro-direita, da direita moderada ou liberal se terem espalhado ao comprido. Se somarmos a votação destas três candidaturas perdedoras, obtemos um total de 2.235.980 votos, mais 480.216 votos do que os 1.755.764 de Seguro e mais 909.038 votos do que Ventura. Há que saudar o empenho e a coragem democrática das candidaturas de Cotrim, Melo e Mendes, mas contra factos não há argumentos. Afinal não se espalharam, eles dividiram-se ao comprido, isso sim. Mas o que me chocou, foi perante esta aritmética tão simples e clara, o candidato da extrema-direita que perdeu votos, se auto intitular de líder da direita portuguesa, é preciso ter lata. Mas mais chocado fico, quando perante uma afirmação tão patética, nenhum jornalista ter exercido o devido contraditório, ou pelo menos, ter feito a pergunta que se impunha, porquê será?
3 - Como vimos, a segunda volta deveria ser entre Seguro e um candidato da direita moderada que não apareceu e que valeria mais de 2 milhões de votos. Mas a realidade é outra e agora vamos ter um mano a mano entre Seguro e Ventura, e nestes termos, e como estamos em Portugal, mais uma exótica novela, e esta, bem mexicana. Então não é que segundo Ventura, o PSD e os seus militantes deveriam apoiar a sua candidatura na segunda volta por esta representar a direita, metendo as elites no meio da confusa argumentação. O PSD não é um partido de direita, ideologicamente estará muito mais próximo do socialismo moderado de Seguro do que da deriva nacionalista de Ventura, qual é a dúvida? Pelo menos para mim é tão óbvio, é tão evidente. Mas como seria de esperar, a suposta polémica ganha corpo e com os jornalistas do costume a dar para o peditório, porque será?
Penso que os factos foram correctamente apresentados e devidamente justificados com números, já as interrogações, estas não têm um corolário tão simples. O que faz do Chega e de Ventura personagens tão odiadas e ao mesmo tempo tão veneradas no espaço mediático, será pelo facto de garantirem audiências e shares? O que vi na SIC Notícias nesta terça-feira, dia do debate entre os dois candidatos deixou-me seriamente preocupado. As filmagens da chegada de Ventura ao local do debate, a juntar-se à sua entourage, não são isentas, além de serem provocatórias e claramente planeadas. No final do debate quando o candidato Seguro falava à saída, mostravam ao mesmo tempo, imagens de Ventura junto da sua trupe, ouvindo-se os cânticos e as palavras de ordem. Uma vergonha, não foi descuido, foi intencional. Incomodou-me, tenho de admitir, antes de ser social-democrata, sou democrata, e isso aproxima-me de Seguro e coloca-me a léguas de Ventura. A moderação, a contenção, o respeito e a sensatez, são valores da social-democracia e são características determinantes para quem nos representa a nós e ao nosso país, a minha escolha está feita...penso que não preciso de dizer mais nada.