Alguns dos 15 corpos de palestinianos devolvidos por Israel na Faixa de Gaza, em troca do último refém israelita repatriado na semana passada, apresentavam “sinais de tortura”, alegaram hoje as autoridades do território.
“O estado do último grupo de corpos entregue pelas autoridades de ocupação [Israel] era marcado por cenas de extrema brutalidade. Os corpos não estavam em melhor estado do que os dos lotes anteriores. Estavam decompostos e apresentavam sinais de tortura”, condenou, em comunicado, o porta-voz do Departamento de Perícia Forense das autoridades do enclave, controladas pelos islamitas do Hamas.
Mahmud Ashour descreveu que vários dos 15 corpos entregues no final da semana passada por Israel “foram encontrados sem roupa”, o que pode indicar presumíveis abusos, enquanto outros apresentavam “ferimentos de balas e vestígios de explosivos”.
A entrega dos 15 corpos marcou o fim da primeira fase do cessar-fogo em vigor na Faixa de Gaza desde 10 de outubro, que previa a devolução dos últimos reféns (20 vivos e 28 mortos) mantidos no enclave em troca dos restos mortais e de centenas de prisioneiros em posse de Israel.
No dia 26 de janeiro, o exército israelita anunciou que tinha localizado no norte da Faixa de Gaza os restos mortais do último refém, o polícia israelita Ran Gvili, de 24 anos, abatido nos ataques liderados pelo Hamas em 07 de outubro de 2023, que fizeram cerca de 1.200 mortos no sul de Israel, e levado pelas milícias palestinianas para o território com outras 250 pessoas.
No total, após o regresso dos corpos dos últimos 28 reféns mortos para território israelita (incluindo quatro estrangeiros que não foram trocados), os hospitais da Faixa de Gaza receberam os restos mortais de 360 palestinianos.
No entanto, apenas foram confirmadas as identidades de 101, durante a tentativa de os devolver às suas famílias.
“Estamos a iniciar um novo capítulo de sofrimento para as famílias dos desaparecidos na Faixa de Gaza, pois não dispomos do equipamento necessário para examinar os corpos dos mártires, determinar as suas identidades e enterrá-los com dignidade”, lamentou Ashour.
As autoridades israelitas controlam e restringem os artigos que entram ou saem da Faixa de Gaza, obstruindo ou atrasando a entrada de material médico e outros bens essenciais que consideram ter dupla utilização (militar e civil), segundo várias denúncias de organizações não-governamentais, descrevendo o processo como arbitrário.
Além da troca de reféns e prisioneiros, a primeira fase do cessar-fogo incluiu a retirada parcial das forças israelitas da Faixa de Gaza e a entrada de ajuda humanitária no território.
As próximas etapas preveem um Governo de transição tecnocrático, já constituído, o desarmamento do Hamas, a criação de uma força militar internacional e a reconstrução do enclave.
No seguimento dos ataques há mais de dois anos liderados pelo Hamas, Israel lançou uma operação militar em grande escala no enclave palestiniano, que provocou mais de 71 mil mortos, segundo as autoridades locais, um desastre humanitário, a destruição de quase todas as infraestruturas do território e a deslocação de centenas de milhares de pessoas.