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Artigo de Opinião

HISTÓRIAS DA MINHA HISTÓRIA

30/01/2026 08:00

Caros leitores, espero que tenham entrado em 2026 com o pé direito, que as vossas resoluções para o ano novo se mantenham firmes e não se tenham já revelado como projetos com pés de barro. Sei bem como é: a preguiça e a vontade de adiar chegam com pezinhos de lã e, pé ante pé, anulam os bons propósitos. Porém, há que sacudir a inércia e lutar a pés juntos pelo que se quer.

Claro que não é fácil, os contratempos surgem e convidam a desistir. Contudo, mesmo que seja preciso bater o pé, se o propósito for válido, por certo, os caminhos se abrirão e a energia não faltará. Fundamental é mesmo o esforço pessoal, se nada fizermos, nada alcançaremos porque não adianta esperar que outros façam por nós. Lá diz o ditado que quem espera por sapatos de defunto toda a vida anda descalço.

No entanto, há situações em que nos invade a sensação de estar de pés e mãos atados e, nesse caso, a melhor opção será mesmo instalar-se na inércia ou enveredar por outro rumo; descer do sonho e assentar os pés na terra. Até porque a desistência nem sempre é sinónimo de fracasso. Pode ser tão só o entender que não vale a pena, ou que não é o momento certo. Pode ser mesmo a possibilidade de novos percursos e descobertas. Começamos a caminhar, cautelosos, em bicos de pé, e descobrimo-nos onde não supúnhamos ir. Quantas vezes a vida impõe uma mudança, que nos causa ansiedade e desalento, para mais tarde virmos a reconhecer como a melhor escolha que ela nos poderia ter oferecido?

Janeiro avança a passos largos e o carnaval anuncia-se com malassadas e sonhos regados a mel e alegria e, por estes dias, já rufam tambores a orientar o ritmo dos grupos que treinam o seu pé de samba, no qual mesmo quem tem dois pés esquerdos se aplica. De resto, na dança como em tudo o mais, o planeamento, a dedicação e a prática impõem-se. Só assim evitamos andar por aí a meter os pés pelas mãos.

Caros leitores, se ainda me acompanham, ou seja, se ainda não deram com os pés na leitura destas linhas, é possível que estejam a pensar: que texto mais sem pés nem cabeça! Compreendo-vos e confesso que esta brincadeira linguística com os pés foi uma forma de fugir à estranheza dos dias que vivemos, em que, do pé para a mão, o mundo parece ter ensandecido, com um borbotar de dirigentes que, com bazófia agressiva ou discursos de enganos, exibem a sua vontade de ter o mundo aos seus pés. As regras que acreditávamos estabelecidas, acordos firmados ou conceitos de respeito internacional que levaram décadas a construir estão postos em causa. Se vagueio pelas redes sociais, leio alguns comentários em busca do conforto de algum equilíbrio, mas só encontro virulentas reações a reações. Sinto-me perplexa e quero fugir a sete pés. Vem-me à mente o episódio de “Alice no país das Maravilhas”, quando a jovem tenta escapar do caótico jogo de croquet da sanguinária Rainha de Copas e do seu tresloucado baralho de súbditos. Alice, descoroçoada, confidencia ao Gato de Cheschire o seu espanto, queixando-se de que todos jogam desprezando as regras e brigam de tal forma uns com os outros que ninguém se consegue ouvir.

Assim vai o mundo e, não podendo escapar, resta-me esperar que tudo não passe de um pé-de-vento passageiro. Entretanto, nada como um pequeno jogo linguístico, no qual espero não ter dado qualquer pontapé na gramática, para nos fazer esboçar um sorriso, por ténue que seja. Talvez a palavra nos ajude a sobreviver ao absurdo do dia-a-dia.

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