A chefe da diplomacia da UE avisou hoje que, quanto mais a guerra no Irão durar, “mais a Ucrânia vai sofrer” e considerou que o alívio de sanções à Rússia pelos EUA não podia ter acontecido “numa altura pior”.
“Quanto mais a guerra no Médio Oriente continuar, mais a Ucrânia vai sofrer. A Rússia já esta a ganhar dinheiro com a guerra no Médio Oriente. Com o aumento do preço do petróleo e o encerramento do Estreito de Ormuz, pode continuar a guerra por muito mais tempo”, avisou Kaja Kallas numa audição na Comissão de Negócios Estrangeiros do Parlamento Europeu.
Neste contexto, a Alta Representante da União Europeia (UE) para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança considerou que a decisão dos Estados Unidos (EUA) de levantar temporariamente sanções ao petróleo russo já em trânsito “não podia ter vindo numa altura pior para a Ucrânia”.
Kallas defendeu que a Europa deve “mitigar o aumento dos lucros energéticos da Rússia”, impondo mais sanções e procurando desmantelar a chamada “frota fantasma”, antes de deixar críticas aos bloqueios da Hungria a medidas de apoio à Ucrânia.
A “frota fantasma” russa é composta por navios que normalmente navegam sem bandeira e sem seguro que permitem à Rússia exportar petróleo e gás apesar das sanções internacionais impostas desde a invasão da Ucrânia.
“A nossa incapacidade em chegar a um acordo sobre o 20.º pacote de sanções [à Rússia] ou sobre o empréstimo [de 90 mil milhões de euros] à Ucrânia coloca em risco a segurança de toda a UE. Estas questões têm de ser resolvidas quando os líderes europeus se reunirem esta semana. Caso contrário, estamos a marcar um autogolo”, advertiu.
Depois de o presidente do Conselho Europeu, António Costa, ter defendido em entrevista à Lusa e a outras agências de notícias europeias que a Europa “terá de dialogar com a Rússia” para a paz na Ucrânia, apesar de considerar que isso não acontecerá já, Kaja Kallas foi questionada se considera que se devem normalizar as relações com a Rússia.
Na resposta, a chefe da diplomacia da UE perguntou sobre o que é que se pretende falar com a Rússia, considerando que as negociações de paz para a Ucrânia só estão paradas porque Moscovo “tem estado completamente ausente”.
“Está toda a gente a pôr pressão na Ucrânia, mas ninguém está a fazer nenhuma pergunta à Rússia. E, desculpem, mas se continuarmos assim, isto só vai piorar”, disse, sugerindo que os europeus não devem concordar com todas as propostas dos Estados Unidos sobre a matéria.
“Se a Rússia acha que pode simplesmente chegar a acordo com os Estados Unidos sobre assuntos que dizem respeito à Europa, e que depois os europeus vão simplesmente fazer o que os americanos dizem, isso também envia um sinal à Rússia (...). Por isso, temos de lhes enviar um sinal claro de que não é esse o caso”, disse.
Kallas defendeu que a Rússia deve perceber que qualquer assunto que diga respeito à Europa deve ser negociado com os europeus, voltando a apelar para que a UE não se pronuncie sobre assuntos sobre os quais não foi consultada.
“Não devemos elogiar acordos sobre os quais não fomos consultados previamente (...). Depois não nos podemos queixar de que não estamos na mesa de negociações se já demos a nossa aprovação antes”, afirmou.
A Ucrânia tem contado com ajuda financeira e em armamento dos aliados ocidentais desde que a Rússia invadiu o país, em 24 de fevereiro de 2022.
Os aliados de Kiev também têm decretado sanções contra setores-chave da economia russa para tentar diminuir a capacidade de Moscovo de financiar o esforço de guerra na Ucrânia.