A compensação de Deus

O pai era analfabeto, passou fome e frio, cuidou de cabras e de porcos, trabalhou em fábricas e minas, sofreu humilhações, abusos, tristezas sem fim e endureceu mais que pedra. Pelo caminho fez-se comunista, tinha de ser, e depois foi para a guerra. Lutou em Espanha e na Itália contra os fascistas, mas também há quem diga que, afinal, combateu ao lado dos franquistas e dos alemães. Seja como for, regressou intacto e trouxe um saco cheio de dinheiro, sobre o qual nunca falou.

Quando alguém tentava abordar o assunto, ele respondia:

– O silêncio explica o mundo.

Construiu um albergue perto da aldeia, à beira da estrada que atravessa a fronteira e começou a ganhar a vida honestamente, mas de repente morreu engasgado com um naco de carne de carneiro, numa noite de inverno em que o vento uivava furioso pela montanha abaixo como se lhe estivesse a cobrar uma série de maldades e situações mal esclarecidas do passado.

A mãe estudou até à quarta classe. Aprendeu costura e tinha um dom natural para arranjos florais. Foi catequista durante alguns anos e participou em três excursões da paróquia à capital do distrito, com ida à praia para molhar os pés e as pernas até aos joelhos. No decurso da terceira excursão apaixonou-se loucamente por aquele homem e casaram-se pouco depois. Deu à luz três rapazes e ficou viúva quando ainda era jovem e bonita.

Os filhos ajudavam-na na rotina do albergue, onde a comida era publicitada como fresca e acabadinha de confecionar. Os dois mais velhos serviam à mesa e ele, o mais novo, tinha por tarefa recolher os restos de comida e acondicioná-los no armário, para serem servidos no dia seguinte. Também lhe cabia a missão de adicionar água quente na panela da sopa quando o número de clientes excedia o previsto.

A mãe entretinha os hóspedes com conversas dúbias e sorrisos ambíguos e, às vezes, subia com um para o quarto. Fazia-o com tamanha naturalidade que parecia que iam tratar de negócios, assinar papéis, passar recibos, coisas desse género. Quando os filhos perceberam o que se passava, ela tratou logo de os sossegar. Adocicou os olhos, amanteigou a voz e, enquanto preparava um ramo de flores secas para pôr na jarra da sala, disse-lhes:

– Meninos, há coisas nas quais não podemos reparar.

Davam-se bem com a gente da freguesia e participavam em todos os serviços religiosos. Ele, o mais novo, era acólito e os outros carregavam sempre o andor de Nossa Senhora do Rosário nas procissões. No entanto, o bom nome da família começou, pouco a pouco, a ser roído pelas más-línguas à medida que crescia o sucesso do albergue, facto que, no entanto, se devia apenas ao aumento do trânsito na estrada da fronteira. Mas as pessoas não queriam ver isso.

– Faz batota na comida – diziam em surdina.

– Deita-se com os clientes.

– Já o marido não era de confiança.

– Os filhos vão no mesmo caminho.

Eles, contudo, mantinham a postura e a compostura imaculadas, como se nada fosse, mas no coração da viúva germinavam agora sementes de rancor e um forte desejo de vingança. Num certo domingo em agosto, durante a missa da manhã, enquanto observava enternecida o desempenho do filho mais novo, enfiado num traje branco cheio de rendas, os seus olhos iluminaram-se com a luz de uma ideia divina:

– Vou enviá-lo para o seminário.

E continuou a pensar: Sim, o meu filho será padre. Que dirão agora os invejosos? Sim, que dirá essa gente maldita, agora que ele é ordenado padre? E mais ainda agora, que parte para África? Estão a ver? O meu filho é missionário em África! Vai para cinquenta anos que ele está em África! Missionário! A vida inteira ao serviço dos mais pobres, como manda a lei de Jesus Cristo Nosso Salvador.

Orgulhosa e vingada, a velha alteia a voz no salão paroquial repleto de gente:

– E agora podem fazer as vossas doações. Aquilo que puderem. Cinco euros, vinte euros, cem euros. Deus há de vos compensar por isso, já que os pobres, os mais pobres dos pobres, em África, onde está o meu filho, não têm como o fazer.