Coisas do outro mundo

O meu pai acreditava em coisas do outro mundo. O meu pai e a geração dele temiam o que não conheciam, o que só imaginavam ou o que lhes tinham contado.

E, nós, ainda miúdos, vivemos essa transição entre a magia e a realidade.  Ainda nos contavam histórias do outro mundo como se elas fossem verdades e fizessem parte do nosso quotidiano.

É certo que ninguém sabia onde ficava o outro mundo. Se por baixo ou por cima das coisas reais, se por dentro ou por fora das horas e dos dias.

No outro mundo, vivia uma série de seres sem existência comprovada ou com a existência já passada, toda de costas para a vida.  Estavam lá os mortos, os nossos e os dos outros; os seres mais ou menos mágicos, que se dividiam em bondosos ou malvados. Estavam as coisas para as quais não se conseguiam arranjar legendas ou explicação. O outro mundo basicamente era um saco cheio de inexistências, de coisas leves e aladas, de mulheres que voavam e adivinhavam. De gente sem cara definida, mas com a cara de todos os medos.

Era, por isso, um mundo mágico e assustador, ali na fronteira do que se deseja e do se teme.  São assim todos os territórios desconhecidos e era também assim o outro mundo.

Lá também estavam os anjos e os demónios, os das ilustrações do inferno e os das gravuras do céu. Por isso, era normal que houvesse quadros do outro mundo nas paredes do nosso. Eram como uma prova científica do que realmente não existia, mas olhava-nos desde esse lado que não dominávamos.

Penso que também era desse outro mundo aquele Jesus que nos ensinavam a festejar como coisa nova no Natal, e a temer como coisa morta na Páscoa. Não fossem cumpridas as regras, e viriam coisas terríveis do outro mundo.  Coisas que faziam os adultos desligar a rádio ao meio dia da quinta-feira santa, a calar martelos, a sossegar vassouras.

Não sei exatamente quando é que este outro mundo desapareceu no alçapão da nossa contemporaneidade, onde já não existe outro mundo por baixo ou por cima das coisas reais. Agora o que assusta não está em quadros, nem dentro da cabeça. Temos os medos todos por fora, todos na realidade, todos com nome e cara, todas sem segredos. Já nada voa incógnito. Tudo rasteja em lugar certo, assinalado no mapa, mas, nem por isso, tudo o que assusta deixou de assustar.