À morte! À morte! (X)

Um após a sublevação popular, Paulo tenta explicar-se, mas a cidade e os átrios do Templo estão agitados, ninguém ouve ninguém falar. Tiago, desapareceu, poderia ser vítima inocente de um golpe de força irracional, Paulo foi arrastado para fora do Templo, as portas foram fechadas e procuravam mata-lo. O tribuno romano foi informado da agitação, tomou alguns soldados e a multidão ao vê-los deixou de bater no apóstolo. O tribuno mandou algemar Paulo, perguntou-lhe quem era e o que tinha feito. Devido ao tumulto, o tribuno mandou que levassem Paulo para a fortaleza Antónia que estava ao norte do Templo. Ao chegar à escadaria, o tumulto era tão grande e a multidão tão excitada que os soldados tiveram de levantar Paulo nas mãos e levá-lo, enquanto os insurretos gritam “À morte, à morte”. Antes de entrar na fortaleza Antónia, Paulo, livre do perigo, disse ao tribuno: “É-me permitido dizer alguma coisa”? O tribuno interroga Paulo dizendo-lhe: “Sabes grego”?  (A.Ap.21,37), ficou admirado que o prisioneiro soubesse essa língua, Paulo responde-lhe: “Sou judeu, cidadão da ilustre cidade de Tarso na Cilícia, rogo-te que me permitas falar ao povo”.

Estamos no verão do ano 65 da nossa era, o tribuno que arrebatou Paulo da multidão chamava-se Cláudio Lísias, o procurador da Judeia era Félix que residia em Cesareia.

Paulo de pé, na escadaria da Torre Antónia, talvez algemado, fez um sinal com a mão ao povo, fez-se silêncio, o apóstolo começou a falar em língua aramaica. Lucas dá-nos um resumo desse discurso, para Paulo foi um dos momentos mais felizes da sua vida, falar de Jesus Cristo no coração da cidade santa, aquela que condenara Jesus. “Eu sou um judeu, nascido em Tarso da Cilícia, mas educado nesta cidade aos pés de Gamaliel” (A.Ap.22,3), sou da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu, filho de hebreus, segundo a Lei, fariseu.” Paulo descreve o seu zelo pela Lei, a prisão dos cristãos em Jerusalém, a perseguição ao cristianismo e aos judeus cristãos de Damasco, mas sobretudo o momento que mudou a sua vida: “Ao meio dia, de repente, resplandeceu à volta de mim uma grande luz do céu. Caindo por terra, ouvi uma voz que me dizia: Saulo, Saul porque me persegues? “Todo o centro da mensagem de Jesus foi anunciado nas escadarias da Torre Antónia. O discurso foi interrompido pela multidão, mas Paulo proclamou Jesus como o Messias prometido por Deus. Quando o apóstolo afirma que Jesus o enviara a pregar aos gentios, a multidão enfureceu-se e gritou: “Tira do mundo tal homem, ele não pode continuar a viver” (A. Ap. 22,23).

Os soldados retiraram as vestes de Paulo para o açoitar, amarram-lhe os pulsos com as correias, quando estava para receber os primeiros golpes diz ao centurião:” É permitido açoitar um cidadão romano, que nem sequer foi julgado”? O centurião alarmado diz que aquele homem era cidadão romano, o tribuno manda suspender a flagelação e interroga Paulo com respeito: “Diz-me, tu és cidadão romano”? Paulo responde: “Sou”. O tribuno

diz-lhe que também era, tinha comprado este direito por muito dinheiro. Paulo reponde serenamente: “Pois eu sou-o por nascimento” (A.Ap.22,28).

“Cives romanus sum “Sou cidadão romano,” era um título mágico que operava maravilhas! O tribuno ficou amedrontado por ter mandado algemar Paulo, quando um cidadão romano não podia ser açoitado nem algemado, sem prévio julgamento. No dia seguinte, o tribuno querendo saber exatamente porque os judeus o acusavam, mandou soltar Paulo e ordenou aos sumos sacerdotes e ao Sinédrio para julga-lo. O evangelista Lucas quer mostrar como o apóstolo segue os mesmos passos de Jesus.

Fitando os olhos no Sinédrio, disse Paulo: “Irmãos, até hoje tenho-me comportado diante de Deus com toda a boa consciência.”  Para humilhar o apóstolo o pontífice Ananias ordenou que lhe batessem na boca”, a maior ofensa para um judeu. Flávio Josefo descreve este pontífice como violento, dissoluto, avaro e cruel. Paulo, com grande habilidade, não se defendeu, mas usou dum estratagema para confundir o tribunal, exclamou: “Irmãos, eu sou fariseu, filho de fariseus e sou julgado por causa da esperança na ressurreição dos mortos”. Paulo dividiu o tribunal, os saduceus negavam a ressurreição dos mortos que era afirmada pelos fariseus. O tribunal revoltado ficou confuso, os soldados temendo que Paulo fosse despedaço levaram o apóstolo para a Torre Antónia. Durante a noite o Senhor apareceu a Paulo e disse-lhe: “Coragem! Assim como deste testemunho de mim em Jerusalém, assim importa que o dês também em Roma” (A.Ap.23,11). Durante a noite, o tribuno enviou Paulo para Cesareia, com uma escolta de 200 soldados, 70 cavaleiros e 200 lanceiros, para entregar Paulo ao Procurador romano Félix, donde mais tarde seguiu para Roma. Grande alívio para o apóstolo São Tiago Menor!