Estruturas típicas das antigas quintas continuam a pontuar a paisagem, mas o crescimento urbano e falta de inventário colocam em causa a sua preservação. Historiador defende classificação e apoios às denominadas casinhas de prazer, que estão em destaque na rubrica ‘Perdidos e Achados’ deste domingo.
Entre muros antigos e jardins que nos levam a vidas passadas em que o tempo não era um luxo, sobrevivem discretas construções que parecem ter sido feitas para abrandar. Chamam-se casinhas de prazer e fazem parte da paisagem mais íntima das antigas quintas do Funchal, pequenas arquiteturas onde se cruzam memória, contemplação e identidade.
Implantadas em pontos estratégicos dos jardins, quase sempre voltadas para o mar, estas estruturas eram mais do que simples anexos. Funcionavam como extensões da casa e do quotidiano e representavam lugares de encontro, de observação e de recolhimento. Ali, via-se a cidade passar, fosse em procissões, romarias ou enterros, mas também se vivia uma sociabilidade discreta, muitas vezes protegida pelos tapa-sóis de madeira, que permitiam ver sem ser visto.
A sua origem remonta aos séculos XVIII e XIX, num contexto em que o Funchal se expandia e as famílias abastadas procuravam refúgio em quintas fora do centro. A influência da colónia inglesa e o gosto orientalizante da época marcaram estas construções, que cruzam referências europeias com elementos de inspiração indiana e chinesa, adaptados à realidade insular.
De planta simples, geralmente retangular, e com forte presença de madeira, destacam-se pelas sucessivas aberturas e pelos caraterísticos tapa-sóis. No interior, eram espaços de lazer e convívio, onde se jogava, lia, conversava ou simplesmente se contemplava a paisagem.
Preservar a identidade
Para o historiador Emanuel Gaspar, estas estruturas continuam a ser fundamentais para a identidade da cidade. “As casinhas de prazer devem ser preservadas, porque fazem parte da memória do Funchal e da sua paisagem urbana. Identificam a cultura e os madeirenses”, afirma.
Num contexto de crescimento urbano e pressão turística, a sua preservação ganha também uma dimensão própria, sobretudo se tivermos em conta que “o turista gosta de ver o que é típico, o que é local”. “Não podemos transformar o Funchal numa cidade como qualquer outra, senão perde o seu interesse”, sublinha.
Leia o artigo na íntegra na edição impressa deste domingo do JM.