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Portugal tem de assumir “opção atlântica” estratégica sob pena de se tornar periférico

Paula Abreu

Jornalista

Data de publicação
20 Fevereiro 2026
12:16

O presidente do Governo Regional defende que Portugal deve assumir de forma clara uma “opção atlântica” estratégica, sob pena de se tornar periférico num novo quadro de competição entre grandes potências.

Miguel Albuquerque falava durante a quarta edição das Conferências do Atlântico, subordinadas ao tema “Winston Churchill, liberal democracy and the Euro-Atlantic Alliance”, uma iniciativa organizada pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e pelo Município de Câmara de Lobos, reunindo académicos, decisores políticos e especialistas em relações internacionais para debater os desafios contemporâneos da democracia liberal e da Aliança Euro-Atlântica.

Traçando um cenário sombrio sobre o momento geopolítico internacional, o governante entende que o modelo estratégico saído do pós-Segunda Guerra Mundial e consolidado durante a Guerra Fria, baseado na garantia de segurança europeia através da projeção de poder dos Estados Unidos, acabou. “Já acabou aquela conceção herdada da Guerra Fria, onde o poder americano e a projeção do poder americano garantia a segurança da Europa”, afirmou, sublinhando que esse ciclo teve “os seus términos agora”, com a nova estratégia anunciada pela administração norte-americana.

Neste novo contexto, defende, “a Europa tem de fazer um reforço da sua capacidade dissuasora”, o que implica investir na “reindustrialização militar para garantir um poder efetivo e não apenas um poder retórico”.

Contudo, reconheceu que esse esforço surge num momento particularmente delicado para as principais economias europeias. Albuquerque apontou a estagnação da Alemanha, o bloqueio político e a elevada dívida em França e o período “muito crítico” que o Reino Unido atravessa após o Brexit. Ainda assim, considera inevitável uma reorientação de recursos: “Esse esforço vai ter de ser feito, pondo em causa alguma afetação de recursos para outras áreas onde a Europa é pródiga”.

Para Miguel Albuquerque, a nova conjuntura internacional obriga Portugal a fazer uma escolha estratégica clara. “Portugal, como potência pequena ou média, tem de fazer uma opção e essa opção ou é continental ou é atlântica.”

Na sua leitura, o mundo regressou a uma lógica clássica de poder: “Estamos a viver um mundo de volta àquilo que sempre foi, ou seja, as grandes potências fazem o que querem e os países mais pequenos têm de adotar uma estratégia e têm de ter uma posição geopolítica.”

Enquanto membro da União Europeia, Portugal enfrenta, segundo o presidente do Governo Regional, um dilema: alinhar prioritariamente com a estratégia continental de contenção da fronteira leste, face à ameaça russa, ou assumir plenamente a centralidade atlântica.

“Se optar pela contenção da fronteira leste, como neste momento está a ser feito na maioria dos países, sobretudo o Norte e o centro da Europa, devido à ameaça da Rússia, essa é uma opção que torna Portugal periférico”, advertiu.

Em alternativa, defende uma estratégia atlântica assente na geografia singular do país: “Portugal tem algo que poucos países pequenos têm, que é a geografia.” A existência de dois arquipélagos posicionados numa área estratégica do Atlântico Norte e do Atlântico Médio confere, na sua perspetiva, “uma capacidade de projetar poder”.

Confrontado com a ideia de que Portugal parece ter abandonado parcialmente a sua geografia atlântica, Albuquerque respondeu com uma crítica à ausência de uma estratégia nacional clara.

“O problema de Portugal é que eu não sei qual é a estratégia que Portugal tem”, afirmou, defendendo que cabe ao Presidente da República, em conjugação com o Governo e as Forças Armadas, definir o rumo estratégico no novo quadro internacional.

Recordando que Portugal deverá receber 5.800 milhões de euros para o seu rearmamento, o líder madeirense questionou a orientação desses investimentos. “O que é importante perceber é qual a opção”, sublinhou, acusando o país de ter “desinvestido sistematicamente” nos arquipélagos que lhe conferem projeção geopolítica.

E apontou exemplos concretos: a movimentação recente de mais de 500 aviões norte-americanos na base das Lajes, na Terceira (Açores), e a crescente importância dos cabos submarinos que atravessam o Atlântico. Referiu ainda a posição estratégica da Madeira na ligação ao Sul, nomeadamente ao continente africano.

Questionado ainda sobre uma eventual perda de importância do Porto Santo para a NATO, Miguel Albuquerque considerou que a ilha “continua a ter uma grande importância”, mas advertiu que o contexto internacional mudou profundamente.

“A NATO é uma aliança, mas hoje em dia você está numa competição entre as grandes potências, portanto, você voltou à lei da selva nas relações internacionais”, afirmou.

Como exemplos desse novo cenário, apontou a intervenção no Irão, a afirmação dos Estados Unidos da América Latina como zona de influência e os desenvolvimentos na Venezuela e em Cuba, sublinhando que “tudo isto está a ocorrer” num ambiente de afirmação direta de poder.

Para o presidente do Governo Regional, o risco reside na falta de visão estratégica nacional: “O problema é se o país vai continuar a ser gerido de forma míope. Nós temos de olhar para a realidade, sustentou.

Celso Bettencourt reforça que Madeira não é periferia

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Na sessão de abertura, o presidente do município, Celso Bettencourt, por seu turno, evocou os 50 anos da autonomia regional, lembrou o papel “com o mar à frente” de Câmara de Lobos, a escolha de Winston Churchill para viver, sublinhado o simbolismo deste concelho como palco de uma reflexão internacional sobre a aliança euro-atlântica.

O autarca entende que para os madeirenses, o mar é fator identitário, uma vez que o atlântico não é apenas uma teoria, mas “uma realidade vivida e conquistada” ao longo de várias gerações. “A realidade atlântica não é periférica para nós, é central. Somos mais do que um rochedo”, vincou. A Região, reforçou, “está no centro das rotas marítimas, de dinâmicas geopolíticas e de desafios globais”

Celso Bettencourt não tem dúvidas que a Madeira tem de ser assumida como participante ativa no debate sobre a democracia e sobre a cooperação euro-atlântica.

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