Há projetos que começam por surgir de uma necessidade e acabam por ganhar um lugar especial. O podcast “UMa Conversa” nasceu enquanto resposta a uma necessidade do serviço e tomou forma no âmbito do meu estágio profissional na Unidade Operacional de Intervenção em Comportamentos Aditivos e Dependências (UCAD), alimentado por uma vontade antiga de fazer prevenção junto de jovens adultos de forma realista, próxima e acessível.
Enquanto estudante, senti falta de intervenções que coincidissem com a rotina de quem estuda: algo dinâmico, informativo, com linguagem acessível e suficientemente apelativo para suscitar curiosidade. A universidade é uma fase difícil: pressão académica, avaliações, privação de sono, rotinas desreguladas, maior autonomia, instabilidade financeira, solidão, normalização cultural do consumo e, muitas vezes, pouca rede de apoio. Neste contexto, existe uma panóplia de fatores de risco, que promovem o desenvolvimento de doença mental, e o consumo pode surgir como estratégia rápida para aliviar tensão, gerir ansiedade, facilitar pertença ou “anestesiar” temporariamente preocupações.
O UMa Conversa é uma iniciativa da Direção Regional da Saúde, através da UCAD, em parceria com o Serviço de Psicologia da Universidade da Madeira e a Rádio JM. A condução está a cargo de Luísa Mendes, que mensalmente recebe convidados, desde profissionais especializados a estudantes, para abordar temas ligados aos comportamentos aditivos e dependências, saúde mental e bem-estar universitário.
A escolha do formato não é inocente. Um podcast permite entrar onde os folhetos e ações de sensibilização não entram: no caminho para as aulas, no ginásio, nas deslocações de autocarro, entre as tarefas doméstica e numa pausa entre o estudo. Permite também que colegas, amigos e família conversem sobre temas difíceis com menos tensão e mais abertura.
Até ao momento, encontram-se disponíveis três episódios, incluindo um sobre consumo recreativo de álcool (“Até onde vai a diversão?”), outro sobre saúde mental e procura de ajuda, e um sobre a realidade dos estudantes em época de avaliações (“Exames, stress e excesso”). Os episódios são lançados mensalmente e disponibilizados nas plataformas Spotify e Youtube da Direção Regional de Saúde
Importa sublinhar o que o UMa Conversa não substitui acompanhamento clínico. É um ponto de entrada. Um convite à reflexão. Um empurrão para que a conversa aconteça mais cedo — consigo próprio, com amigos, com família, com serviços de apoio. Num contexto universitário, reduzir o tempo entre “algo não está bem” e “vou pedir ajuda” faz totalmente a diferença.
É, no fundo, uma proposta modesta com grande potencial: pôr a saúde mental e prevenção no dia a dia. Se a universidade é um espaço de formação, então também deve ser um espaço onde se aprende a cuidar: do corpo, da mente e das escolhas.