MADEIRA Meteorologia

Artigo de Opinião

16/02/2026 08:00

Nas últimas semanas, tempestades sucessivas, chuva contínua, rios a subir, solos saturados tem sido o dia-a-dia em Portugal. O fenómeno deixou de ser apenas meteorológico e tornou-se social, económico e humano.

Não foi uma chuvinha isolada. Foi uma catadupa. Um verdadeiro comboio de tempestades atlânticas — Harry, Ingrid, Joseph, Kristin, Leonardo e Marta — que atingiram o país quase sem intervalo. Casas destelhadas, estradas cortadas, empresas paralisadas, milhares de pessoas sem eletricidade, escolas encerradas, transportes suspensos. Houve mortos, feridos, desalojados e populações obrigadas a abandonar temporariamente as suas casas. Municípios declararam situações de emergência e a vida normal ficou em suspenso.

Este não é apenas um problema de cheias. É um problema de vidas interrompidas. A economia sofre. O comércio fecha. O transporte falha. A normalidade desaparece.

Climatologistas e historiadores do clima explicam que estamos perante um padrão atmosférico específico: um corredor aberto entre o Atlântico e a Península Ibérica. Habitualmente, o anticiclone dos Açores funciona como um escudo, desviando tempestades para norte. Desta vez, enfraquecido e deslocado, deixou a porta aberta. Resultado: sistemas sucessivos carregados de humidade a entrarem quase em fila, sem pedir licença.

O fenómeno não é totalmente novo. Episódios semelhantes existiram no passado. Mas muitos especialistas sublinham que o que parece estar a mudar é a persistência. Quando estes padrões surgem, duram mais. E descarregam mais. É aqui que surge o paralelo madeirense.

O que hoje inquieta o continente não nos é estranho. Para a Madeira, viver com extremos sempre fez parte da realidade. Não é novidade lidar com chuva persistente, vento forte ou eventos que interrompem a normalidade. Aquilo que agora surpreende outras regiões, a repetição de tempestades e os seus impactos acumulados, é algo que aqui aprendemos a gerir ao longo de décadas. Não por escolha, mas por necessidade.

A Madeira tem aprendido que não pode viver contra a natureza. Aqui nunca houve o luxo da distração. As levadas não nasceram por romantismo, mas porque a água tinha de ser guiada. Os muros não surgiram por estética, mas porque a terra precisava de ser segurada. As drenagens, os taludes, o próprio modo como as casas se encostam à encosta ou se afastam da ribeira, tudo foi sendo moldado por uma regra simples: o território manda.

E talvez seja essa a grande diferença. Enquanto noutros sítios a tempestade ainda é vista como exceção, por aqui tem sido tratada como possibilidade.

O que os cientistas hoje admitem é que o futuro poderá trazer menos “um dia mau” e mais “semanas difíceis”. Não necessariamente mais violência, mas mais persistência, durando mais tempo. E isso muda tudo. Porque o problema deixa de ser apenas a chuva que cai e passa a ser o efeito acumulado do que fica: interrupções, desgaste, custos, cansaço social.

O que podemos esperar? Episódios que não chegam sozinhos. Tempestades que aparecem em série. Períodos em que a normalidade é intermitente. Estradas fechadas hoje, reabertas amanhã, e novamente afetadas dias depois. Empresas que não param por catástrofe, mas por repetição. Escolas que ajustam calendários. Casas que precisam de manutenção preventiva, não apenas de reparação.

A natureza não vai deixar de testar os territórios. Sempre o fez e continuará a fazê-lo. A diferença estará, cada vez mais, na preparação. Nas nossas casas, significa olhar para o básico: escoamentos limpos, terrenos cuidados, pequenas obras feitas antes da urgência. Nas ruas, significa infraestruturas que não sejam apenas suficientes para o dia médio, mas resilientes para o dia difícil. Nas empresas, significa planos de continuidade. Nas escolas, flexibilidade. E para governos e câmaras, a prioridade deixa de ser apenas construir mais, mas passa a ser tornar o existente mais robusto. Manutenção sistemática, planeamento que respeite o relevo, ocupação do solo que antecipe riscos em vez de os remediar.

Por isso, a resposta não está em desejar que não venham, mas em assumir que virão e ajustar a forma como vivemos, organizamos e decidimos. Isso significa garantir que o quotidiano não colapsa quando o clima aperta. Que a mobilidade não fica à mercê de cada sistema que passa, que os transportes mantêm alternativas, que as comunicações resistem e não se apagam nos momentos mais críticos. Que a vida económica e social consegue continuar, ainda que sob pressão. Significa também que as escolhas públicas não podem ser guiadas apenas pelo imediato, mas pela capacidade de resistir ao inevitável. Porque o verdadeiro custo não está no temporal. Está no que obriga quando vai embora.

A verdadeira lição é esta: viver entre tempestades não é exceção, é condição. E aceitar isso implica investir antes, adaptar cedo e preparar melhor. Porque reparar, no fim, sai sempre mais caro do que prevenir.

OPINIÃO EM DESTAQUE

88.8 RJM Rádio Jornal da Madeira RÁDIO 88.8 RJM MADEIRA

Ligue-se às Redes RJM 88.8FM

Emissão Online

Em direto

Ouvir Agora
INQUÉRITO / SONDAGEM

O que achou do desfile de Carnaval?

Enviar Resultados

Mais Lidas

Últimas