Há decisões políticas que revelam visão estratégica. E há outras que expõem amadorismo e uma preocupante inversão de prioridades. A intenção do Governo Regional de alienar o Hospital Nélio Mendonça enquadra-se, infelizmente, nesta última categoria.
Num momento em que a Saúde atravessa fragilidades estruturais evidentes, discutir a venda de uma infraestrutura hospitalar não é apenas imprudente, é politicamente incompreensível. Não estamos a falar de um armazém devoluto ou de uma fábrica de algas inútil. Estamos a falar do principal hospital da Região, da espinha dorsal do sistema de saúde madeirense.
A realidade hospitalar não precisa de relatórios técnicos para ser descrita. Basta ouvir quem lá trabalha e quem lá espera. As urgências vivem sob pressão constante, com episódios de rutura operacional que deixaram de ser exceção para se tornarem rotina. Profissionais exaustos acumulam centenas de horas extraordinárias ao ano, presos num ciclo de desgaste humano que amplifica os riscos clínicos.
Quando enfermeiros do Serviço de Urgência assinam declarações de escusa de responsabilidade, não estão a “fazer política” nem muito menos um “gesto teatral”. Estão a dar um alerta vermelho.
A isto somam-se listas de espera prolongadas para consultas, cirurgias e exames complementares de diagnóstico. Acresce a falta recorrente de medicamentos deixando doentes crónicos numa ansiedade permanente. Quem precisa de um fármaco específico não pode viver na lógica do “aguarde reposição”.
Mas talvez o retrato mais cru da fragilidade do sistema esteja nas chamadas “altas problemáticas”. Centenas de utentes permanecem internados não por necessidade clínica, mas porque não têm para onde ir. Não há vagas suficientes em lares, faltam unidades de cuidados continuados, escasseiam respostas sociais. Resultado? Internamentos que se arrastam, camas ocupadas por quem já poderia ter alta, urgências congestionadas, admissões bloqueadas.
Perante este cenário, é no mínimo absurdo falar na alienação do Hospital, sobretudo quando essa intenção assenta num estudo interno, exigido pelo JPP e divulgado com relutância, resumido a 4 (!) páginas sem densidade técnica nem análise custo-benefício robusta.
E convém recordar um dado essencial: o Novo Hospital, apesar de moderno e necessário, terá menos camas do que o atual. Menos capacidade instalada numa Região que envelhece rapidamente e que enfrenta uma pressão crescente sobre os cuidados de saúde.
Que sentido estratégico faz reduzir a margem de manobra quando o sistema já opera em esforço permanente? Que lógica sustenta a ideia de abrir mão e abdicar de um espaço que poderia ser reconvertido em unidade de cuidados continuados, reabilitação, internamento de retaguarda ou apoio às altas clínicas? Em qualquer organização séria, quando a procura aumenta, reforça-se a capacidade. Não se desmantela património útil.
Há ainda uma questão de coerência política que não pode ser ignorada. Quando o Governo de António Costa condicionava o financiamento do Novo Hospital à venda do Nélio Mendonça, os sociais-democratas regionais insurgiram-se com estrondo. Falava-se de ingerência e de atropelo à autonomia. O tom era inflamado, a convicção inabalável.
Hoje, com margem política para clarificar definitivamente o destino daquela verba e definir uma estratégia com o Governo de Montenegro, o discurso mudou. O brado firme deu lugar ao silêncio cúmplice. A coerência, essa, parece ter sido transferida para outra ala e também entrou em cuidados intensivos.
Transformar um hospital numa variável imobiliária transmite o sinal errado. Sugere que o património público é negociável mesmo contra o interesse coletivo.
Não se trata de saudosismo nem de resistência à mudança. Trata-se de planeamento sério. Trata-se de compreender que saúde não é apenas inaugurar betão novo, mas organizar de forma inteligente e responsável a capacidade existente.
E é, no mínimo, irresponsável discutir alienações e potenciais “negócios” imobiliários quando falta capacidade instalada e os indicadores clínicos gritam por reforço. Quando faltam camas, quando as urgências colapsam, quando as listas de espera aumentam e as famílias desesperam por respostas sociais, a Madeira não precisa de menos camas. Precisa de mais soluções.
O Hospital não é um problema a descartar. É uma oportunidade para reorganizar, complementar e fortalecer. É um ativo estratégico que pode e deve ser integrado numa rede complementar de cuidados. É património público ao serviço da comunidade.
E esta não é uma escolha meramente administrativa. É uma escolha política. E quem pagará o preço de uma decisão errada não serão os governos de turno. Serão, como sempre, os madeirenses.