Terminei agora de ler o último livro do britânico Julian Barnes, no qual o escritor declara que “já vivemos milénios suficientes neste planeta para ter percebido que a vida não é justa nem séria, e que coisas más acontecem muitas vezes a pessoas boas, e coisas boas acontecem às vezes a pessoas más, e que o caos repentino espreita constantemente sob cada superfície plácida”.
Acredito nisto e já vi acontecer muitas vezes. Mas, confesso, que já tenho mais dificuldade em aceitar que pessoas boas possam ser genuinamente más, e que pessoas más possam ter bondade e empatia, apesar das infâmias e maldades que ativamente praticam e professam.
Não, não aceito que atos, omissões e posicionamentos éticos bárbaros possam ter origem numa qualquer falha momentânea da suposta humanidade e bondade, não creio que nos falhe o coração como se nos faltasse o chão. Com certeza que podem existir falhas, surtos, loucura, e a psicologia e a psiquiatria até explicam muitas delas, mas também sei que há pessoas cuja zona de sombra e de tempestade ocupa demasiado espaço dentro do mais dentro que existe em cada ser humano, que a sombra e a tempestade são, em certas pessoas, perenes, elemento primordial e constante, natureza imutável.
Só uma zona de sombra pegajosa, só uma tempestade humana escura e peçonhenta pode explicar a maldade reiterada, a violência gratuita, e persistência da infâmia.
Podia dar exemplos seculares, mas prefiro ficar por alguns factos recentes. Todos sabemos que a dor que nos dói de forma mais aguda é a dor mais próxima, é a dor contemporânea, apesar de muitas vezes causada por atos que se repetem, omissões que persistem, erros que são eco de outros erros e que fazem da História um território sem aprendizagem e sem redenção.
Acho que vem dessa zona de sombra e tempestade humana os atos dos que matam por vingança. Pais que matam filhos para se vingarem da mãe que traiu, amantes que matam os companheiros ou companheiras pela mesma razão, ou a morte gratuita em todas as suas manifestações e “desculpas”.
Vem também de uma zona de sombra imensa, gente que é capaz de olhar para a morte trágica de um trabalhador imigrante e que consegue proferir afirmações como “ninguém o convidou a vir para cá”, “que ficasse na terra dele” e outras desumanidades do género, sem remorso ou culpa.
Vêm de uma zona de sombra imensa e vil todos os partidos, aqui e além-fronteiras, que encontram no discurso do ódio e da segregação um espaço político que sentem que podem ocupar, não para o engano de que são contra o sistema, mas sim para no sistema se instalarem e dele beneficiarem.
Na mesma zona de sombra, estão todos os que olham para um ato de solidariedade e sentem ou usam o primarismo de que a solidariedade pode ser suspensa por interesses e discursos políticos rasteiros.
Coloco, sem reservas, na mesma zona de sombra todos os atos de crueldade e violência contra os animais que não se podem defender e que, ainda assim, são barbaramente agredidos como se a vida fosse coisa de somenos, como se a dor fosse coisa exclusiva nossa, como se fosse nossa uma qualquer superioridade que legitimasse todos os atos e todos os crimes. Não são! Pensar que sim é talvez o nosso erro mais profundo e que nos levará à provável extinção.
Termino este texto como o iniciei, com uma citação de Julian Barnes: “a vida não é uma tragédia com um final feliz, apesar do que a religião promete; é, antes, uma farsa com um final trágico ou, no seu melhor, uma comédia ligeira com um final triste. Ou na antiga formulação, uma comédia para aqueles que pensam e uma tragédia para aqueles que sentem”.
E talvez o nosso problema seja esse: um erro, um engano, uma falsa crença na imortalidade própria e um esquecimento profundo da verdade de que a morte é certa para todos e que essa é a nossa mais profunda humanidade perecível. No fim, tudo é mais breve do que parece.