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Artigo de Opinião

15/02/2026 08:00

A República Democrática do Congo é um país de superlativos. Com cerca de 2,3 milhões de quilómetros quadrados, é o segundo maior de África e estende-se por dois fusos horários. No seu território convivem florestas tropicais densas, savanas, montanhas, vulcões permanentemente activos e até zonas áridas. É aqui que pulsa a segunda maior selva tropical do planeta, apenas atrás da Amazónia, um oceano verde que regula o clima africano e guarda uma biodiversidade quase mítica.

No coração desta vastidão corre o Rio Congo, o segundo maior rio de África, logo a seguir ao Nilo. O seu caudal é tão impressionante que o país possui um dos maiores potenciais hidroeléctricos do mundo. As quedas de Inga, por exemplo, poderiam teoricamente abastecer grande parte do continente africano. No delta, a força bruta da água escavou um canyon subaquático que se prolonga por milhares de quilómetros no Atlântico, uma cicatriz visível por satélite, testemunho do volume colossal de água e sedimentos que o rio transporta.

Mas é no leste, na região dos Grandes Lagos, que a paisagem atinge uma dimensão quase espiritual. Entre o Kivu Norte e o Kivu Sul, colinas verdes mergulham em lagos profundos, sob o olhar de vulcões activos. O Lago Kivu, com uma área comparável à da ilha da Madeira, reflete céus dramáticos e montanhas enevoadas. Para mim é simplesmente o lugar mais bonito do planeta.

Foi também ali que vivi uma das experiências mais extraordinárias da minha vida, no Parque Nacional de Virunga, o mais antigo parque nacional africano e cenário do documentário da Netflix. Virunga é terra de contrastes, com uma beleza arrebatadora e tensão permanente. A presença de milícias armadas, incluindo grupos ruandeses responsáveis por massacres no passado, obriga os guardas a patrulhar com kalashnikovs. A conservação aqui faz-se com coragem real.

Após duas horas num jeep 4x4, circulando pela pior estrada de África, chegamos à entrada do parque. Após os protocolos e pagamentos, caminhámos horas na selva densa, enlameada pela chuva constante. A vegetação fechava-se sobre nós como uma muralha viva. De repente, os guardas começaram a emitir sons guturais, uma espécie de grunhidos, para anunciar a nossa presença. Não era teatro, era protocolo. Pouco depois, numa clareira húmida, surgiu uma família de cerca de vinte gorilas.

O grupo organizou-se instintivamente. O macho dominante, o dorso-prateado, colocou-se entre nós e os restantes membros. A mensagem era clara: aqui mando eu. Houve segundos de tensão pura. O olhar fixo, o peito largo, a força contida. Depois, gradualmente, a desconfiança diluiu-se. As crias, curiosas, começaram a aproximar-se. Eram imediatamente afastadas pelos guardas, pois os gorilas não têm imunidade às doenças humanas e um simples vírus pode ser fatal.

Durante meia hora, observámo-nos mutuamente. Não foi um espetáculo, foi um encontro. Os guardas conhecem aqueles animais pelo nome, pelos hábitos, pelo temperamento. São, de certo modo, parte da mesma comunidade. E pagam caro por isso, pois vários já morreram a proteger os gorilas de caçadores furtivos e milícias.

A República Democrática do Congo é um país ferido por décadas de conflito, corrupção e exploração. Mas é também um dos últimos grandes santuários selvagens do planeta. Entre o rugido distante de um vulcão e o silêncio denso da floresta, entre a violência humana e a resistência da natureza, existe ali uma beleza quase insuportável, provocando-me uma emoção tal, que me vieram as lágrimas aos olhos.

Chamar-lhe “o lugar mais bonito do planeta” pode soar exagerado. Não é. É apenas o reconhecimento de que, apesar de tudo, há territórios onde a natureza ainda impõe respeito e onde o ser humano, por breves instantes, volta a sentir-se pequeno.

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