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Artigo de Opinião

Coordenadora do Centro de Estudos de Bioética – Pólo Madeira

15/02/2026 08:00

Os números divulgados no Jornal da Madeira a 26 de janeiro não são apenas estatísticas. São rostos, histórias, vidas inteiras que hoje aguardam, em silêncio, por um lugar digno onde possam envelhecer com segurança e respeito. Na Região, há atualmente mais idosos em lista de espera por uma vaga em lar do que aqueles que já se encontram institucionalizados: 1.332 à espera, 1.301 acolhidos. Esta realidade interpela-nos profundamente enquanto sociedade.

Envelhecer é um processo natural. Mas envelhecer na solidão, na fragilidade e na incerteza não deveria ser. Cada número representa alguém que trabalhou, que construiu famílias, comunidades, empresas, instituições. Alguém que contribuiu para o desenvolvimento da Madeira e que agora, numa fase de maior vulnerabilidade, enfrenta a angústia da espera.

É justo reconhecer o investimento público realizado. Em 2025, foram aplicados 21,5 milhões de euros nos cuidados aos seniores e está prevista a construção de mais 399 camas. Estes dados revelam esforço e compromisso institucional. Contudo, a ética não se mede apenas pelo investimento financeiro, mas sobretudo pela capacidade de responder atempadamente às necessidades humanas.

A espera, para um idoso, não tem o mesmo significado que para um jovem. O tempo pesa mais. A saúde deteriora-se mais depressa. A solidão torna-se mais profunda. Cada mês em lista de espera pode significar perda de autonomia, agravamento de doenças, isolamento emocional e, em muitos casos, sofrimento silencioso das próprias famílias, que tentam, muitas vezes sem recursos, assegurar cuidados adequados.

Este cenário levanta questões morais fundamentais: que lugar damos aos nossos idosos? Como sociedade, estamos verdadeiramente preparados para cuidar de quem cuidou de nós? Estamos a planear o futuro com visão ou apenas a reagir às urgências do presente?

O envelhecimento da população é uma realidade previsível. Não é uma surpresa. Exige planeamento estratégico, investimento contínuo, valorização dos profissionais da área social e da saúde, e sobretudo uma política centrada na dignidade da pessoa humana. Não se trata apenas de criar camas, mas de criar respostas integradas: apoio domiciliário reforçado, estruturas intermédias, apoio às famílias cuidadoras, acompanhamento psicológico e social.

A ética do cuidado obriga-nos a olhar para além dos números. Obriga-nos a perguntar se estamos a construir uma sociedade onde envelhecer não seja sinónimo de medo, abandono ou invisibilidade. Uma sociedade verdadeiramente humana mede-se pela forma como trata os seus membros mais frágeis.

Os idosos não são um “problema social”. São património vivo. São memória, sabedoria, identidade. Merecem ser tratados com respeito, proximidade e gratidão. Merecem mais do que listas de espera. Merecem presença, escuta e dignidade.

Que estes números não sejam apenas notícia passageira. Que sejam um apelo coletivo à consciência, à responsabilidade e à ação. Porque cuidar dos nossos idosos hoje é cuidar do futuro que todos, inevitavelmente, iremos habitar.

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