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Artigo de Opinião

DO FIM AO INFINITO

20/02/2026 08:00

Já tinha passado mais de um ano, mas o gajo ainda chorava todos os dias e perguntava porquê. Coitado, o gajo chorava todos os dias e perguntava porquê. Diz-me porquê? Por que me deixaste? Porquê? O que foi que eu fiz? O gajo sempre a insistir, sempre a telefonar, sempre a mandar mensagens, noite e dia. Porquê? Porquê? Porquê?

Coitado.

Ela, porém, mantinha-se inflexível.

– Acabou. Ponto final. – Dizia, com uma frieza inacreditável, como se não tivessem vivido juntos dez anos.

Depois, considerando que a situação era absolutamente normal, tratava-o como se fosse uma lata de conserva cujo prazo de validade expirara há muito tempo e, para arrumar o assunto, pedia-lhe que fizesse o mesmo em relação a si.

– Trata-me como um produto fora de validade.

A perfídia da mulher é terrível, pensava ele e chorava:

– Porquê? Porquê? Porquê?

Coitado.

Andava ele neste estado de desgraça emocional há mais de um ano, quando, de repente, conheceu outra gaja, uma gaja chamada Maria Juana, filha de emigrantes na Venezuela. Ela aparecia volta e meia no bar onde ele costumava afogar mágoas e solidão. Era bonita, mas com ar levemente arrapazado. Quando a viu pela primeira vez, olhou-a de alto a baixo e depois nunca mais lhe prestou atenção, embora ela o saudasse sempre que entrava no estabelecimento.

Três ou quatro semanas mais tarde, contudo, quando estava passear a sua infinita tristeza num jardim à beira-mar, ouviu uma voz que o chamava. Era Maria Juana, a venezuelana. Estava estendida na relva de barriga para baixo, com os cotovelos enterrados no chão e o queixo apoiado nas mãos.

– Anda cá! – Ordenou.

Ele foi e sentou-se ao seu lado.

– Quero tomar um café. Por que não me convidas para tomar um café?

Mesmo sabendo que caminhava para um abismo, ele disse:

– Vamos.

Falando depressa, sempre depressa, com o seu encantador sotaque venezuelano, Maria Juana contou-lhe mil aventuras com base numa viagem alucinante que fizera ao Uganda, nas quais entravam um poeta vagabundo nas ruas de Kampala – o amor da sua vida, confessou – que desapareceu sem mais nem menos; uma infeção intestinal terrível; uma malária ainda mais terrível; um acampamento de pacifistas europeus que acabou à pancadaria; um maravilhoso festival de música africana no Centenary Park; tantas atribulações e deambulações formidáveis e, por fim, um esquema para traficar uma presa de elefante com dois metros, situação que acabou da pior forma, com passagem por uma cadeia local, e pôs fim à viagem.

– Estou a fazer tempo para o caso cair no esquecimento – explicou.

Depois, é claro, Maria Juana haveria de voltar ao Uganda, à procura do poeta vagabundo, que, tal como ela, não acredita na ordem das coisas, nem na estrutura atual da sociedade, nem no dinheiro, porque isso são mentiras usadas para nos arrebanhar e manter direitinhos, sempre a dizer sim aos fascistas dos governos e aos magnatas do petróleo e aos bilionários do software, puta que os pariu! Nós só acreditamos na revolução contra o sofrimento da Humanidade – dizia ela – e vamos vencer, podes ter a certeza. Pelo menos vamos lutar – sublinhou – e tu, se quiseres, podes vir connosco, podemos começar já esta noite a pintar paredes, a mandar o governo para o raio que o parta.

Foi dizendo e redizendo inúmeras coisas desvairadas, de modo que, ao correr das horas, ele perdeu várias vezes a noção da realidade. Tinham percorrido muitos bares e pelo meio até tinha fumado um charro, algo que não fazia desde os 18 anos. A certa altura, a noite parecia não ter mais para lhes oferecer. Então, ele agarrou-a por um braço e disse:

– Na tua casa ou na minha?

Maria Juana, a venezuelana, respondeu sem hesitar:

– Na tua.

Porém, não sentiu nada. Arriscou tudo e não sentiu nada, ou melhor, não se lembra do que sentiu e até lhe parece não ter visto nada, corpo nenhum. Bom, tem uma vaga memória das mamas, que eram pequeninas e muito bem feitas... Depois, como é óbvio, Maria Juana desapareceu e ele continuou a chorar:

– Porquê? Porquê? Porquê?

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