Há semanas jantava com um amigo, psiquiatra, que se converteu ao budismo. Em torno de figuras políticas, do panorama internacional ao nacional, íamos trocando impressões e contextualizando tais figuras na saúde mental e nos princípios budistas e cristãos. E detivemo-nos na “maledicência” tão comumente praticada que mais parece um ritual do dia-a-dia de tanta gente. Este ato – gratuito e maldoso- de se dizer mal dos outros, denegrindo-os – está intimamente ligado à cobardia, ou não ocorresse, o maldizer, sempre na ausência e nas costas do visado...
A maledicência é sempre uma crítica malévola aliada, portanto, à maldade, definindo e caracterizando bem quem faz do ato de dizer mal dos outros a sua prática mais recorrente. Creio que foi Freud o autor do provérbio: “Quando Paulo fala de João, sei mais de Paulo do que de João” e assim é, sabe-se mais do maledicente do que da sua vítima (define-se pela “projeção psicológica do malediciente”). E, também dos que a consentem e incentivam...
Mas porventura, o pior da maledicência é o facto de contaminar grupos e ambientes, acrescendo-os de uma carga negativa e destrutiva, não raramente criando divisões e contendas.
Da perspetiva do budismo, a maledicência é desprovida de virtuosismo e é incompatível com a espiritualidade, gerando o que denominam de Karma negativo que por sua vez gera sofrimento e isolamento do maldizente. Esta foi a abordagem feita pelo meu amigo no mencionado jantar. Já eu, de matriz cristã e mais inclinada para a moral, procurei tecer outras leituras em torno desta natureza comportamental que rebaixa o outro de forma malévola.
Moralmente, a maledicência escancara a falta de maturidade do intriguista, os seus preconceitos e os seus valores (rasos!) ao julgar o próximo. São pessoas perversas, cobardes e... certamente infelizes com a sua própria vida.
Em termos religiosos (e os maledicentes são-no muitas vezes!) trata-se mesmo de um “pecado” que atenta contra a compaixão pelo outro e fomenta a injustiça pelo julgamento de outrem, provocando a “discórdia entre irmãos”: “Irmãos, não falem mal uns dos outros” (Tiago 4:11).
Psicologicamente, não raras vezes, a maledicência está associada à falta de autoestima, à insegurança e a traços de personalidade do maledicente que este projeta no outro quando maldiz.
Parafraseando um outro provérbio: “ As pessoas geniais falam de ideias; as medianas falam de coisas; as medíocres faltam de outras pessoas”.
Por fim, pessoalmente, opto sempre ou por desconversar a “bilhardice” ou então pelo silêncio, na grande maioria das vezes – e, claro, pelo afastamento e evitação do detrator, sempre que possível. E jamais propagar o que foi dito; “não lhes dando ouvidos” mesmo!