Sou a Patrícia, tenho 33 anos, vivo em Bruxelas, não sou casada, não tenho filhos. Fui jornalista durante vários anos na Madeira e hoje trabalho em comunicação nas instituições europeias. Pago renda, faço compras no supermercado, esqueço-me de responder a mensagens ou de dar água às minhas plantas e passo demasiado tempo a pensar se estou a fazer as coisas “como devia”. Nada de extraordinário. Uma vida perfeitamente normal.
Talvez por isso tenha havido uma altura em que comecei a achar que havia qualquer coisa errada comigo. Nada de grave, nada dramático. Simplesmente sentia que estava sempre um pouco atrasada em relação a tudo, como se toda a gente soubesse o que estava a fazer e eu estivesse só a improvisar.
Continuava a trabalhar, a cumprir prazos, a tratar da minha vida. Mas comecei a ter menos paciência para planos à última hora, menos energia para socializar só porque “fica mal dizer que não”, menos vontade de estar sempre disponível. Cancelava coisas que antes aceitava sem pensar. Ficava em casa mais vezes. E depois vinha a culpa.
A explicação mais fácil era chamar-lhe preguiça. Falta de disciplina, falta de vontade. Mas, olhando melhor, não era isso. Eu não queria menos da vida. Estava era cansada de estar sempre a funcionar no limite.
No ano passado, acordei um dia e disse à minha melhor amiga: talvez devêssemos correr uma maratona. Não porque gostasse particularmente de correr, mas porque parecia o tipo de coisa que alguém organizado, focado e “bem resolvido” faria. Como se a confusão mental se resolvesse com um plano de treinos. Num dia estás cansada, no outro estás a ver ténis de corrida online e a perguntar-te quando é que decidiste querer ser o Obikwelu. E, caro leitor, eu de facto comprei todo o material de corrida necessário...
Não é bem uma crise de meia-idade. É mais discreta porque não mudas tudo de repente. Apenas começas a achar que devias estar a fazer melhor. A render mais. A aproveitar mais. A otimizar alguma coisa, seja o corpo, o tempo, a carreira, ou tu própria.
Ao mesmo tempo, as pessoas à tua volta começam a viver vidas muito diferentes. Uns têm filhos, outros mudam de país, outros recomeçam tudo, outros parecem sempre tranquilos. Começas a comparar coisas que já não são comparáveis e ficas com aquela sensação estranha de estar bem... mas não completamente.
O corpo também começa a dar sinais. Recuperar custa mais. Dormir mal pesa mais. Dois dias seguidos cheios já são demais. Ficar em casa deixa de ser falta de planos e passa a ser gestão de energia. Mesmo assim, há culpa. Porque aprendemos que descansar é quase um defeito.
Vivemos num tempo em que estar cansado é visto como falha pessoal. Se estás exausto, é porque não te organizaste bem ou não és suficientemente resiliente. Mas talvez não seja isso. Talvez não estejamos a perder motivação. Talvez estejamos apenas demasiado tempo sem pausa, num mundo que não para.
Esta fase não tem nome nem manual. Não estás perdido, mas também não estás exatamente no sítio, entende? Não estás mal, mas também não estás entusiasmado. E isso, num mundo que gosta de respostas claras, parece errado.
Talvez não seja. Talvez seja só uma fase normal da vida adulta que ninguém explica. Um ajuste. Um abrandar forçado. Não para desistir, mas para continuar de outra forma. É maturidade, diria eu. Mesmo que venha acompanhada de dúvidas, olheiras e ideias repentinas de atleta olímpica. Não sei, quem sabe um dia começo com a meia-maratona.