Fumo no Porto

O anfiteatro da baía do Funchal reúne uma beleza ímpar que se estende das serras ao mar, proporcionando uma vista multifacetada apreciada seja por quem cá reside, seja por visitantes. Quem está em São Martinho olha para São Gonçalo e pode observar como a luz do pôr do sol reflete nos vidros, acrescentando brilhos dourados ao final da tarde. Quando cai neve, olhamos logo para o recorte da serra para ver a moldura branca invernal. Durante os tempos mais restritivos da pandemia Covid-19 fez-nos falta observar essa atividade portuária com a entrada e saída de diversas embarcações. Contudo há um grande senão, que transporta mais do que parece: as chaminés dos cruzeiros a emitir poluição para o nosso anfiteatro.

É certo que o Porto do Funchal recentemente ganhou um galardão dos World Cruise Awards, sendo distinguido como “Melhor Destino Europeu de Cruzeiros”. Contudo, existe um outro Top10 onde figura o Porto do Funchal, nomeadamente a lista dos portos que mais sofrem com a poluição emitida por cruzeiros. O Funchal é a 7ª cidade europeia mais afetada, com 18 toneladas de emissões de óxido sulfúrico (SO3), figurando assim acima de cidades como Lisboa, Livorno e Santa Cruz de Tenerife.

Estas emissões são nocivas devido à contaminação por partículas finas que penetram com maior profundidade nos pulmões. Ainda recentemente a Agência Europeia do Meio Ambiente (AEMA) clarificou que essa contaminação por partículas finas causou a morte prematura de 238 mil pessoas na União Europeia em 2020. É por isso que muitas associações ambientais reclamam por extensões das zonas de controlo de emissões no setor marítimo como existe nos Mares do Norte e do Báltico. Proteger o ar que respiramos no Funchal não só defende a saúde dos nossos habitantes como promove um destino turístico que cada vez mais vive da sustentabilidade ambiental e do património natural da Laurissilva.

Importa assim que a nível europeu se coloque exigências ambientais redobradas sobre um sector que já beneficia amplamente de efetiva subsidiação. A Associação Zero chama a atenção para o facto do sector marítimo estar isento pela legislação da UE de pagar impostos sobre o combustível que consome.

Sinal de esperança são presenças regulares de cruzeiros no Funchal como o AidaNova, que tem um sistema que reduz as emissões de óxido de nitrogénio e é movido a gás natural liquefeito. Assim, a questão fundamental não é fazer desaparecer os cruzeiros, mas sim, promover a sua descarbonização. Algo que se torna tão ou mais urgente perante o impacto que tem em diversas cidades portuárias (como o Funchal). Se queremos proteger este anfiteatro, seria de incentivar a discussão sobre como reduzir as fumarolas que prejudicam a saúde pública e a vista sobre a nossa cidade.