Humor negro

Colhemos aquilo que semeamos. Um facto que por estes dias pode ser medido a vários níveis, desde logo na escalada de aumento dos preços que ameaça a qualidade de vida de milhões de agregados familiares pelo mundo fora. E porquê? Porque preferimos assobiar para o lado e assentir à intolerância de Vladimir Putin durante anos a fio por meras razões economicistas. Saía mais barato, pronto. Por isso fomos deixando andar até chegarmos ao atual ponto de dependência. E nesta fase, ainda não refeitos do impacto financeiro de sucessivos confinamentos, a fatura da guerra de Putin será passada a cada um dos consumidores.

Ao mesmo tempo que sobem os custos, vai naturalmente sobrando espaço nas carteiras da classe média. Os tais que só sentem o peso da inflação e continuam com ordenados estacionários, cada vez mais próximos de um salário mínimo que na Madeira, apesar de ter aumentado 41 euros em janeiro deste ano, é manifestamente insuficiente para dar resposta ao peso da inflação.

O presente é desanimador. E há múltiplos exemplos já retratados pelo JM. Os pescadores fazem contas à vida, independentemente de o Governo Regional propalar normalidade quando a Coopesca indica um retrato completamente diferente; há trabalhadores a estacionarem os carros porque não têm como acompanhar o preço dos combustíveis; há obras paradas e outras que não sairão do papel por causa da subida do custo das matérias-primas. Mas o importante, na ótica de quem governa – aqui, acolá ou aqueloutro – é lembrar que existem outros que estão bem piores do que nós. Será humor negro? Pelo menos parece e bem pior do que a piada que motivou a agressão de Will Smith a Chris Rock, na cerimónia dos Óscares.

Aliás, uma semana após a chapada mais mediática da história, continuamos a discutir se existe – ou deve existir – limites para o humor. E há, de facto, uma linha delimitadora, mas que oscila de pessoa para pessoa. Ao contrário da liberdade – de expressão ou de outra ordem qualquer –, que devia ser igual para todos, mas a atualidade dita outra realidade. Veja-se o que se passa no leste europeu…

Não menos importante seria perceber como é que uma agressão vista por milhões de pessoas fica, aparentemente, sem punição e o agressor até sai como rei da festa! A este nível, pelo menos, estamos muito, mas mesmo muito mais zelosos. Até uma manifestação pacífica, por sinal à porta da Quinta Vigia, mereceu a pronta intervenção da polícia. Houve, inclusive, aviso de detenção… mas ficaram-se pela identificação do autor.

No plano noticioso, aliás, o humor é ainda mais evidente quando a notícia não serve o interesse do noticiado, mesmo que este esteja a ser alvo de processo-crime. Criminoso ou não, ainda antes de qualquer sentença há sempre alguém capaz de lhe deitar a mão, inclusive com dinheiros públicos. Bem, sempre é melhor ganhar a vida noutro lado do que tentar continuar onde é acusado de se apropriar do que não é seu.