E se as pessoas se conhecessem melhor a si próprias?

Passaram-se já várias décadas desde que, em 1974, foi publicado o designado relatório Lalonde, “A new perspective on the health of Canadians”, um documento de referência que chamou a atenção para o facto de os resultados em saúde não dependerem apenas da eficiência do sistema de saúde por si, mas também do papel dos contextos e estilos de vida das pessoas.

Esta perspetiva dos determinantes psicossociais em saúde foi reforçada ao longo do tempo e hoje trata-se de algo que muitos classificariam de óbvio. Mas a verdade é que o óbvio também tem de ser lembrado e sobretudo concretizado. De facto, continua a ser necessária esta ênfase à noção de que muito se estabelece em saúde antes das pessoas chegarem a um consultório. E isto aplica-se especialmente em saúde mental.

Se pensarmos na saúde mental como uma pirâmide que pressupõe diferentes níveis de intervenção em saúde, em que no topo estão as intervenções mais especializadas e intensivas, e portanto dirigidas a um menor número de pessoas, então também não podemos esquecer o que está na base dessa pirâmide. Ou seja, o que é importante ter em conta nos contextos de normalidade e de forma mais generalizada, envolvendo o maior número de pessoas.

Temos referido frequentemente que muitos dos determinantes de saúde mental envolvem dimensões individuais, familiares, laborais, sociais - o que acontece nos nossos locais de trabalho, em idades precoces, na família, na escola, no bairro, na comunidade. E de forma transversal a todos esses contextos, é fulcral a promoção do autocuidado, bem como da capacidade de cada um de nós se poder conhecer melhor a si próprio/a, encarar a realidade e até identificar potenciais sinais de que algo não está bem. Esta capacidade de autoconhecimento e de promover o autocuidado, de conhecer sinais e sintomas das perturbações psicológicas e prevenir o seu surgimento e ter atitudes menos estigmatizantes, e de procurar ajuda de forma criteriosa quando necessário, remete-nos para a noção de literacia em saúde mental.

Num mês em que se assinala o Dia Mundial da Saúde Mental e numa realidade em que ainda há pouco conhecimento público sobre as perturbações, em que persistem algumas crenças e estigma, e em que os tempos são ainda mais desafiantes a este nível, mais do que nunca importa alertar para a importância e o papel da literacia em saúde mental. A própria Ordem dos Psicólogos Portugueses tem desenvolvido múltiplas iniciativas neste âmbito, quer em articulação e colaboração com a comunidade, quer no lançamento de recursos, como é o exemplo do portal https://eusinto.me/.

Se a saúde não significa apenas a ausência de doença e se também temos de promover as competências na base da tal pirâmide para que as pessoas não adoeçam - e quando tal acontece, saibam o que fazer -, então é essencial promover a literacia em saúde mental, a qual corresponde a um dos principais componentes dos determinantes sociais da saúde e um preditor da saúde.

A literacia, a capacidade de autoconhecimento e de enquadrar esse autoconhecimento na realidade que nos rodeia é certamente um fator central e basilar em saúde mental. Permite-nos perceber porque pensamos, sentimos e nos comportamos, e dar sentido à experiência. E se há ainda um grande caminho a percorrer a este nível, a boa notícia é que há um corpo sólido de conhecimento em psicologia, bem como profissionais habilitados para tal e que, em intervenções multinível nos vários setores, têm dado e podem ainda dar um contributo. Queiramos e saibamos aproveitar esse potencial.