Ir ao moinho

Noutros tempos, as farinhas de milho ou de trigo, não eram adquiridas num supermercado ou numa “venda”.

O grão vinha da terra e depois de todo o processo de laboração, desde a plantação até à secagem ao sol, ia bater moinho mais próximo que existia na zona. Por norma moinhos movidos a água.

Não raras as vezes recebia essa incumbência para levar o grão até o moinho para o transformar em farinha. Era com essa farinha que minha mãe fazia o milho cozido ou amassava o pão.

Ela preparava um saco de pano e era lá dentro que metia uma certa quantidade de grão.

Depois caminho acima lá ia eu em direção ao moinho.

Muitas vezes quando lá chegava tinha de esperar um bom bocado. Havia sempre muito movimento. Mesmo existindo vários moinhos na freguesia, também havia muita gente que procurava estes espaços.

Era sempre uma experiência gratificante. Adorava ver o moinho funcionar. Ficava de certa forma espantado com aquela tecnologia.

Recordo-me de todo o processo.

Quando chegava à minha vez, a senhora que trabalhava no moinho, metia o grão dentro duma caixa de madeira em forma de “V”. Tinha uma espécie de tranca que servia para controlar a saída do grão em direção às pedras que o iam transformar em farinha.

Toda esta operação produzia um cheiro característico e por sinal até bem agradável.

A farinha depois de passar nas pedras caía para uma outra caixa e era aí que se ia amontoando até ao ponto de retirada para outra operação.

Depois de moída a farinha passava para outra máquina que a peneirava. Aí procedia-se à separação do rolão, que era uma espécie de farinha integral, mas que na altura era considerado um subproduto, usado para coisa menores.

Depois de tudo concluído o saco que serviu para trazer o grão, voltava a ser usado para levar a farinha de regresso a casa. O pagamento ao dono do moinho era por norma em género… ou seja o moleiro ficava com uma parte do grão como contrapartida pelo seu trabalho.

Todo este processo desde a entrada do grão no moinho até à saída em farinha e rolão, era acompanhado pelos clientes da zona. O moinho era por assim dizer também um espaço de convívio social. Muita da conversa era posta em dia ali. Com a roupa e o cabelo branco cheio de farinha o moleiro ou a moleira eram eles que controlavam todas as operações e até as conversas.

No meio de tudo isto havia um elemento fundamental para que o moinho pudesse funcionar: a água.

No verão às vezes devido à falta dela, o moinho inevitavelmente tinha de parar. Também me aconteceu chegar ao moinho e este não estar a funcionar. Quando a água “andava de giro”, esse problema colocava-se. É que esse “combustível” corria na levada, passava pelo moinho e seguia o seu percurso em direção aos terrenos onde era utilizada para a agricultura. Mas se estivesse a ser usada noutra zona, podia não passar pelas rodas que faziam mover as pedras do moinho.
Por vezes esse tempo de paragem na moagem era usado pelo moleiro para “picar a pedra”. Era uma operação que tinha de ser feita de vez em quanto para que a moagem estivesse sempre afinada.

“Picar a pedra” implicava que a mesma tinha de ser retirada da zona e deslocada normalmente para a rua para poder ser tratada. Era uma operação ainda algo complicada, tendo em conta o peso destas pedras. Eram grandes rodas. Implicava quase que desmanchar toda a estrutura onde as duas pedras - a de cima e de baixo- funcionavam.

Também não era um trabalho para qualquer um. Recordo-me de ver o moleiro pacientemente com um instrumento metálico a fazer pequenos cortes na pedra. Era um trabalho de muita perícia.

Na minha infância eram vários os moinhos que existiam em Santana. Com o andar dos tempos muitos foram encerrando. Hoje em funcionamento são muito poucos. Mesmo fechados alguns ainda preservam no seu interior toda a maquinaria. Um património que talvez fosse de criar condições para que não desaparecesse e que no mínimo estivesse disponível para ser contemplado pelas novas gerações e por quem nos visita.