O início de um novo ano costuma trazer consigo promessas de mudança, resoluções pessoais e, pelo menos em teoria, alguma vontade de fazer diferente. No plano internacional, porém, os dilemas parecem repetir-se com uma regularidade desconcertante. A Venezuela é um deles. Um país rico em recursos, empobrecido na prática, preso numa crise prolongada que continua a dividir opiniões, alianças e leituras políticas.
A situação venezuelana não é simples nem admite respostas fáceis. De um lado, um regime que se afastou progressivamente de princípios democráticos, com eleições contestadas, repressão política e uma economia colapsada. Do outro, uma população exausta, empurrada para a pobreza, para a emigração forçada e para uma dependência crescente de ajudas externas. Entre estes dois planos, o do poder e o das pessoas, há um abismo que raramente é o centro do debate.
A intervenção dos Estados Unidos, direta ou indireta, surge frequentemente apresentada como solução moral ou como ingerência imperialista, dependendo do lado a partir do qual se observa. A verdade, como quase sempre, situa-se algures no meio. As sanções económicas tiveram o mérito de expor internacionalmente a natureza autoritária do regime e de limitar a sua margem de manobra financeira. Ao mesmo tempo, tiveram, e continuam a ter, impactos reais na vida quotidiana de milhões de pessoas, agravando dificuldades que já existiam.
Ignorar estes efeitos colaterais é tão redutor quanto romantizar um regime que falhou sistematicamente em proteger os seus cidadãos e cidadãs. A política externa não se faz apenas de intenções, mas de consequências. E quando estas recaem, sobretudo, sobre quem já pouco têm, importa questionar se o caminho seguido é, de facto, o mais eficaz.
Há também um risco claro na leitura excessivamente polarizada deste conflito. Quando tudo se resume a “bons” e “maus”, perde-se a capacidade de análise crítica e fecha-se espaço a soluções negociadas, sustentáveis e centradas nas pessoas. A democracia não se impõe por decreto externo, mas também não se constrói sob repressão interna.
Talvez 2026 devesse ser o ano em que se abandona a lógica de blocos e se aposta mais na diplomacia, na mediação internacional e no apoio humanitário despolitizado. Não por ingenuidade, mas por pragmatismo. Porque a estabilidade não nasce da humilhação de regimes nem do sofrimento prolongado de povos inteiros.
Escrevo isto sem torcer por lados, até porque estes assuntos pela máxima sensibilidade que exigem não podem ser vistos como uma competição, mas com a convicção de que a política, quando perde humanidade, perde também sentido. E começo este ano com a única ideologia possível: menos slogans, mais responsabilidade; menos certezas absolutas, mais compromisso com quem vive, todos os dias, as consequências das decisões tomadas longe da sua realidade.