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Artigo de Opinião

DO FIM AO INFINITO

16/01/2026 08:00

O Senhor Conde pegou na caixa dos charutos, uma caixa feita no século XIX mas contendo um rico e aromático tabaco cubano do século XXI, e perguntou-lhe se era servido. Ele recusou, pensando que poderia engasgar-se com o fumo, começando a tossir, a ficar vermelho e depois roxo e depois a chorar sem controlo, o que seria o fim da macacada, por assim dizer. Já o Senhor Conde acendeu um charuto com mais de um palmo de comprimento, reclinou-se na cadeira, cruzou as pernas e disse:

– Lembra-se do grande terramoto de 1976?

Quem, no perfeito juízo, ter-se-ia esquecido daquele terramoto?! Quem?! Eu digo-vos: Ninguém!

– Foi muito importante para nós – disse o Senhor Conde. – Pondo de parte a tragédia e o sofrimento do povo, o terramoto representou a entrada de milhões de dólares de ajuda internacional, o que permitiu não só levar a cabo todos os trabalhos de reconstrução, como ainda lançar novas e importantes infraestruturas que nos colocaram na rota dos países desenvolvidos e consolidaram a nossa economia e, sobretudo, a nossa independência.

Ele estava cada vez mais confuso.

– Atualmente, como bem sabe, estamos a atravessar uma crise sem precedentes – prosseguiu o Senhor Conde –, uma crise muito pior do que aquela gerada pelo terramoto, que na verdade não foi crise nenhuma, como já lhe disse, mas apenas uma tragédia. A crise de agora é internacional e nós estamos com sérias dificuldades para pagar as nossas contas, como certamente o senhor ouve dizer nas notícias, embora muito do que se diz seja mentira. A culpa, porém, não é do governo. A nossa dívida tem um fundamento científico, é preciso não esquecer. O governo, como o senhor bem sabe, fez sempre tudo e mais alguma coisa pelo povo e pelo desenvolvimento da nossa terra. A culpa, caro amigo, é da trama internacional. Fomos arrastados pela crise mundial e agora cada um tem que se desenrascar da maneira que puder e souber.

O Senhor Conde chupou o longo charuto e perdeu-se no vazio da sala, como se tivesse viajado do século XXI para o século XIX, ou seja, do charuto para a caixa, através duma porta invisível. Por um instante, ficou como se fosse um lutador de sumo em meditação zen, ao passo que ele, o cidadão normal, sentia-se cada vez mais baralhado e era incapaz de conciliar os pensamentos, pelo que estava prestes a cair no abismo do fim da sua cabeça, o abismo de todos os tempos.

O Senhor Conde voltou a si e prosseguiu:

– Não podemos aumentar mais a carga fiscal sobre a população e as empresas. Se o fizermos, corremos o risco de enfrentar graves convulsões sociais que podem até conduzir ao fim da independência. Ficaremos então nas mãos dos novos imperialistas, talvez dos chineses, veja só!, ou dos indianos, ou dos russos, para já não falar dos americanos. Isto não pode de modo nenhum acontecer. Pelo menos não pode acontecer de uma forma visível, se é que me faço entender. Mas para que isto não aconteça temos de ir buscar mais dinheiro e quem nos pode dar esse dinheiro é a própria população e o próprio tecido empresarial. Não através de impostos, claro, mas através de donativos. Percebe? Temos de fazer com que o povo e as empresas nos deem o dinheiro de livre vontade e é nisto que consiste o nosso Plano de Salvação Nacional, meu caro amigo.

O cidadão normal, que todos os dias é arrancado à força da cama e colocado perante o absurdo do Mundo, começou então a pensar que o Senhor Conde era um louco de alta envergadura, um louco destravado, um louco muito perigoso, e teve medo dos próprios pensamentos, pensando que corriam o risco de se transformar em fala, ou seja, em pensamento em voz alta, coisa que lhe ocorria com frequência, indo depois parar aos ouvidos do presidente da República Insular de São Barnabé, que como todos sabem é a Região Autónoma da Madeira virada do avesso e posta ao sol para lhe tirar o mofo.

– A solução, caro amigo, está outra vez no grande terramoto de 1976 – disse o Senhor Conde. – Como vê, aquele terramoto foi uma bênção de Deus.

Ele quis dizer alguma coisa, sim, o cidadão normal quis realmente dizer alguma coisa, mas não foi capaz. Tinha a garganta demasiado seca e ficou a olhar para o Senhor Conde como o burro olha para um palácio. Assim mesmo. Sábia conversa popular, sem dúvida. Um burro a olhar para o palácio. Eis o cidadão normal.

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