MADEIRA Meteorologia

Artigo de Opinião

Gestora de Projetos Comunitários

7/03/2026 08:00

O Dia Internacional da Mulher, que se celebra amanhã, não nasceu para flores, jantares “de mulheres, para mulheres” ou de slogans.

Nasceu, no século XX, de lutas pelos nossos direitos – direito ao trabalho, ao voto, à dignidade. A data só é assumida oficialmente pelas Nações Unidas em 1975, no quadro do Ano Internacional da Mulher – um dia dedicado aos direitos das mulheres e à paz.

É inquietante ver que, por vezes, este dia fica reduzido a uma coreografia social que pouco respeita o sentido da verdadeira celebração deste dia. Há gestos que alimentam a sátira – jantares “de mulheres, para mulheres”, onde o homem surge como pretexto para chacota “porque é o dia das mulheres” ou para os expor publicamente, de forma sexualizada. Não é a mesma coisa que o assédio quotidiano (estrutural, repetido, assimétrico) a que as mulheres são sujeitas, mas revela um certo mal-entendido sobre o que se deve celebrar. Confunde-se a emancipação, o empoderamento, com uma perturbadora inversão de papéis. Celebrar a igualdade não é virar o jogo por uma noite, é repudiar e recusar o jogo, todos os dias.

De forma paralela, no espaço digital, cresce uma espécie de demagogia informal que faz da misoginia um ‘estilo de vida’ [devassa] desejado pelos nossos jovens. Os influencers têm vindo a promover uma espécie de subcultura online que transforma a misoginia em algo normal, a humilhação do outro em poder e o controlo sobre o parceiro em “opinião baseada em princípios e valores” ou, de forma ridícula, em “amor”.

Já o referi neste espaço, mas repito: as redes sociais, os influencers e os ambientes “incel” estão a pesar no debate público e a promover a normalização do assédio e da violência contra mulheres e contra as minorias. A evidência científica demonstra que a violência promovida e incentivada no espaço público não fica limitada ao ecrã, ou a uma partilha “porque sim”. Pode escalar, intimidar, destruir vidas.

É por tudo isto e por tudo aquilo que aqui não cabe escrever, mas que todos sabemos existir, que a arena política não pode limitar-se a observar, a ser neutra. Há bons exemplos. Curiosamente, o melhor exemplo veio de um jovem do Liceu Jaime Moniz na sessão plenária promovida no âmbito do Parlamento Jovem esta semana. Todas as escolas participantes seguiram o voto de protesto contra um dos deputados eleitos na Assembleia da República, que foi convidado a contribuir para o debate sobre a importância da literacia financeira nas escolas. E todos os partidos, além do visado, deveriam aprender com estes jovens que a retórica parlamentar pode (e deve!) pautar-se pela lisura, pelo respeito pelo cargo, pelo eleitor e por todos os intervenientes, mas também pelo tema em discussão.

Sabemos que os discursos nacionalistas da ultradireita tratam a igualdade como uma ameaça. Algures no caminho, deslocaram a fronteira do aceitável para normalizar a agressão verbal de quem não lhes faça vénia.

Se o 08 de março se tornar apenas um evento social “de e para as mulheres”, se continuarmos a permitir a indiferença contra o que se passa nas redes sociais, as mulheres cedo aprenderão a silenciar a voz e os homens cedo confundirão a liberdade com permissão. A escola, aqui, é a linha da frente do combate à desigualdade, da promoção da igualdade e da equidade, mas a educação cabe aos pais. Aquilo que os pais dizem, fazem, publicam nas redes sociais são a principal bússola moral e ética de cada um destes jovens, não é a escola. À escola cabe transmitir conhecimento. Sejamos claros: os limites ensinam-se dentro de casa. E porque as palavras educam, quero deixar um grande bem-haja a todos os que deram o (bom) exemplo.

O dia de amanhã exige um compromisso de todos com a decência democrática. Não é apenas uma questão de princípios, de moral ou ética, é um direito. A igualdade é um direito de todos. E o que a história nos tem ensinado é que os direitos que não se defendem, perdem-se. A geração que cresceu com tantos direitos, conquistados a pulso, não deveria sentir-se autorizada a retirá-los a ninguém.

OPINIÃO EM DESTAQUE

88.8 RJM Rádio Jornal da Madeira RÁDIO 88.8 RJM MADEIRA

Ligue-se às Redes RJM 88.8FM

Emissão Online

Em direto

Ouvir Agora
INQUÉRITO / SONDAGEM

Como os vários encerramentos de agências bancárias na Madeira o têm afetado?

Enviar Resultados

Mais Lidas

Últimas