Hoje não é apenas mais um jogo. Hoje é o dia em que Portugal entra em campo e um país inteiro começa a respirar ao ritmo de uma bola. Há quem diga que isto é só futebol. Pois claro.
Hoje, mais do que tática, posse de bola, linhas de pressão ou aquelas estatísticas que parecem relatórios de engenharia, jogam-se memórias, sonhos e aquela esperança teimosa que nunca abandonou este povo de navegadores.
Dizem que é preciso jogar bem para ser campeão do mundo. Talvez. Mas o futebol, como a vida, raramente se escreve em linhas direitas. Às vezes basta “um bocadinho assim”. Basta aquela bola que, em vez de beijar a linha lateral, decide apaixonar-se pela rede. Basta que o remate deles saia ligeiramente ao lado, como se o destino soprasse ao ouvido: “hoje não, amigo, hoje é dia de Portugal”.
Portugal acredita. Acredita desde sempre.
Lembramo-nos de 2004, quando Scolari chegou e fez mais do que montar uma equipa — construiu uma nação dentro de 11 camisolas. De repente, as janelas encheram-se de bandeiras, os cafés tornaram-se templos e cada golo era um abraço coletivo. O país descobriu que sabia sofrer em conjunto, gritar em conjunto e discutir substituições como se todos tivéssemos o curso de treinador.
Hoje talvez essa chama já não arda com a mesma inocência. Estamos mais exigentes, mais desconfiados, mais especialistas de sofá. Antes dizíamos “força Portugal”; agora dizemos “não percebo esta saída a três com o lateral por dentro”. Evoluímos, portanto. Ou pelo menos complicámos.
Mas a verdade é que continuamos a acreditar.
Até num improvável Éder remate e marque golo.
E se há alguém que mudou definitivamente a forma como Portugal olha para si próprio, é Cristiano Ronaldo. Com ele, Portugal deixou de pedir licença para entrar nos grandes palcos. Passou a chegar, sentar-se à mesa e perguntar: “então, hoje é para ganhar ou é só para aquecer?”
Antes de Cristiano, Portugal ia aos Mundiais como quem ia a uma festa importante com medo de não estar na lista. Com Cristiano, passou a entrar como convidado habitual. Mais do que golos, recordes ou capas de jornal, ele trouxe mentalidade. Trouxe fome. Trouxe a recusa em aceitar que “estar quase” chega. E não chega.
Este não é apenas o sonho de Cristiano. Nem apenas de uma geração dourada. É o sonho dos Magriços de 66, das lágrimas de 2004, do alívio de 2016, das noites em que sofremos mais do que era clinicamente recomendável, e de todos os que já disseram: “eu hoje não vejo o jogo, que me faz mal” — para depois estarem sentados 20 minutos antes do início, camisola vestida e nervos em modo panela de pressão.
Hoje, quando a bola começar a rolar, não serão apenas passes, cortes, remates e cantos mal batidos que nos fazem levantar do sofá a reclamar com uma convicção científica duvidosa. Será Portugal inteiro em campo.
Será o miúdo que sonha ser Ronaldo.
Será o pai que explica ao filho que “no meu tempo é que era”.
Será o avô que ainda fala de Eusébio.
Será a mãe que diz que não liga a futebol, mas pergunta quanto está de cinco em cinco minutos.
Será a Madeira, o Porto, Lisboa, o Minho, o Alentejo, os Açores, as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo e todos aqueles que, por uma noite, falam a mesma língua: a língua do golo.
Porque o futebol tem esta coisa bonita: divide-nos durante a semana, junta-nos no hino. Durante o campeonato somos de clubes, de cores, de rivalidades e de discussões eternas. Mas quando joga Portugal, até a bola parece mais redonda.
E se o futebol tiver mesmo um lado poético, então talvez hoje seja o dia em que o destino decide rimar connosco.
Por todos os que vestiram a camisola.
Por todos os que acreditaram antes de nós.
Por todos nós.
Pela mudança de mentalidade, para uma mentalidade de que somos melhores, como a do Cristiano.
Porque naquele verão inesquecível cantávamos que “só falta trazer a taça”.
Pois bem.
A taça ainda falta.
Mas a esperança já cá está.
Hoje joga Portugal — e isso basta para acreditar.