MADEIRA Meteorologia

Artigo de Opinião

Antropóloga / Investigadora

15/06/2026 07:35

Há frases que os madeirenses repetem tantas vezes que já parecem parte da paisagem. Uma delas surge sempre que alguém fala em viajar: “Já viste o preço das passagens?”

É uma pergunta simples, mas que esconde uma realidade complexa. Para quem vive numa ilha, viajar nunca foi apenas fazer as malas e partir. Viajar significa, antes de mais, conseguir pagar o bilhete.

Há algo de curioso em viver rodeado pelo mar. A mesma beleza que encanta milhões de visitantes todos os anos – sem saber que esta paisagem nasceu do suor dos madeirenses - é também aquilo que nos separa fisicamente do resto do território nacional. Enquanto muitos portugueses podem decidir fazer uma viagem de carro para visitar a família ou aproveitar um fim de semana diferente, os madeirenses dependem quase sempre do avião. E quando o preço dos voos dispara, a liberdade de circulação parece encolher.

Não se trata apenas de turismo ou lazer. Muitas vezes, viajar significa estudar, trabalhar, participar numa formação, resolver assuntos de saúde ou simplesmente visitar familiares. São necessidades normais para qualquer cidadão, mas que ganham um peso diferente quando o custo da deslocação representa uma fatia significativa do orçamento mensal.

É difícil explicar a quem vive no continente o que significa abrir um site de reservas e descobrir que uma viagem de poucos dias pode custar mais do que umas férias noutro país. Mais difícil ainda é aceitar que, por vezes, voar para uma capital europeia pode ser mais barato do que fazer uma ligação considerada essencial para quem vive numa região ultraperiférica.

A Madeira tem feito um percurso notável de afirmação. O turismo cresce, a região ganha reconhecimento internacional e o aeroporto recebe visitantes dos quatro cantos do mundo. São conquistas importantes e motivo de orgulho coletivo. No entanto, existe uma diferença entre chegar à Madeira como turista e sair da Madeira como residente.

O visitante vê o destino. O residente vê a necessidade.

Talvez seja por isso que o tema dos transportes nunca desaparece das conversas. Surge nas redes sociais, nas notícias, nas mesas de café e nos encontros familiares. Não porque os madeirenses gostem de reclamar, mas porque sentem diariamente o impacto de uma condição geográfica que continua a marcar oportunidades e escolhas.

A insularidade não é apenas uma característica geográfica. É uma realidade que influencia a forma como estudamos, trabalhamos e nos relacionamos com o exterior. E quando o custo das viagens se torna excessivo, essa realidade faz-se sentir de forma ainda mais evidente.

Ninguém espera que viver numa ilha elimine todas as dificuldades. O mar sempre foi parte da nossa identidade e continuará a ser. Mas talvez seja legítimo esperar que a distância não se transforme num privilégio para alguns e numa limitação para muitos.

Porque para quem vive na Madeira, viajar nem sempre significa partir à descoberta. Muitas vezes, significa apenas ter a possibilidade de regressar. E regressar a casa nunca deveria ser um luxo.

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