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Artigo de Opinião

18/06/2026 07:35

Explicar este fenómeno é complicado, o aparecimento criado através de enigmas e a rápida hibernação ajudam a compreendê-lo. Falo-vos do duo de irmãos escoceses, pioneiros no IDM (intelligent dance music), música de dança inteligente em tradução literal, e no movimento de hauntology, na falta de melhor tradução, música fantasmagórica, Boards of Canada (BoC), talvez ajude começar no início. A carreira começou ainda nos anos 80, através de cassetes passadas entra familiares e amigos na Escócia, atraindo curiosos que ficavam intrigados pelo corte e costura que saiam dessas faixas.

Agosto de 1995 marca o início de Boards of Canada, nome retirado do Instituto Nacional de Filmes do Canada, que produzia documentários e animações educativas para as crianças, com o lançamento do seu primeiro LP ao grande público “Twoism”, a que se seguiu “Hi Scores”, lançado em 1996, chamando a atenção de tudo e todos, criando a antecipação para o primeiro disco completo.

A antecipação criada é talvez o grande ponto de vendas de BoC, mas a verdade é que se o conteúdo não corresponde-se o fenómeno esfumava-se, chegamos ao ano de 1998, dois anos após o lançamento de “Hi Scores”, e ao seu álbum de estreia “Music Has The Right to Children”. O título não é uma escolha sem cabimento, verificamos que nada é feito sem propósito, os samples retirados dos mais diversos programas para crianças mostram isso, desde da Rua Sésamo aos documentários dos já mencionado Instituto de Filmes do Canada, e a calma transmitida quase que permite adormecer uma criança, num disco que acabou por ser um marco para a música eletrónica.

O sucessor de “Music Has The Right to Children”, chegou em 2002. “Geogaddi”, trás uns Boards of Canada menos esperançosos, entrando no campo da psicadélico e sendo pioneiros com o seu estilo mais fantasmagórico, as mensagens sublimes entram a todo o vapor, num álbum que foi francamente influenciado pelo mundo na altura, conforme confessam. A paranoia global instalada no pós 11 de setembro, faz com que seja um disco sombrio e tenso, com referências a numerologia, ao paganismo e às seitas americanas. É também por esta altura que as atuações ao vivo desaparecem e as entrevistas tornam-se cada vez mais escassas, criando um certo misticismo em torno dos irmãos Mike Sandison e Marcus Eoin.

Chegamos a 2005, Boards of Canada lançam “The Campfire Headphase”, o seu álbum mais comercial. As músicas começam a ter uma estrutura mais tradicional, aparecem as guitarras acústicas, menos samples, menos mensagens crípticas e mais instrumentalização, é também o disco que contém talvez a música mais amplamente divulgada do duo, com inclusão de videoclip, “Dayvan Cowboy”, e depois o silêncio...

Durante 7 anos, a esperança de um novo lançamento por parte de BoC desapareceu, até que no Record Store Day de 2013 começaram a aparecer uma série misteriosa de seis conjuntos de seis dígitos. Lançados na BBC Radio 1, NPR, no site de fãs da banda, no canal Adult Swin, um LP, e no canal de Youtube, a antecipação estava criada e 3 de junho “Tomorrow’s Harvest” é lançado. A influencia de bandas sonoras dos filmes de terror dos anos 70 e 80 está bem presente, as mensagens sublimes também regressam, e estática da VHS também, num disco que é sobretudo uma homenagem ao passado.

Chegamos a abril deste ano, altura em que vários fãs recebem VHS em casa, posters começam a aparecer em diversas cidades e o burburinho começa a aumentar, no final do mês, um novo vídeo vindo do nada, uma canção, simplesmente intitulada de “Tape 05”. Tempo depois o anúncio aguardado pela comunidade musical, uma novo disco, 13 anos depois, “Inferno”, mais uma vez, um nome poético para descrever os dias que correm. Temas bíblicos entram em cena, em conjunto com o ocultismo que marcou presença em “Geogaddi”, a sonoridade torna-se mais pesada, criando momentos de claustrofobia, em outros há um certo alívio, alguma “aleluia”, como na faixa “Naraka”, “Age of Capricorn” é um regresso ao som de “The Campfire Headphase”, “Tape 05” transformou-se em “Deep Time”, é talvez a música que transmite o que BoC queriam para este “Inferno”, um crescendo que alcança a euforia para depois trazer-nos de volta à terra terminando com o som estático de um mundo que está suspenso.

“Inferno” é a soma de tudo o que é Boards of Canada, expandido, coerente, impactante, abrangente, e místico, é um caso de estudo para as gerações futuras. E como é claro, corresponde à ausência.

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