A casa dos avós do Rapaz era pequena, pequenina, como se fosse o centro do mundo, ou seja, aquele lugar minúsculo onde começa o tempo, a distância, a forma e o peso de todas as coisas. Só tinha três quartos e eles – o avô e a avó – dormiam no quarto que estava virado para onde o sol se põe. Tinham ambos mais de setenta anos, talvez mais de oitenta, ou mais ainda, e andavam sempre a resmungar um com o outro, porque eram pessoas com feitios muito diferentes, como carne e peixe, água e fogo, cão e gato.
– Vem para aqui! – Dizia o avô.
– Vai para ali! – Retorquia a avó.
Era sempre assim.
O avô acordava todos os dias bem-disposto e punha-se logo a cantarolar – lá-lá-lá, nã-nã-nã – sentado na beira da cama e depois fazia o mesmo enquanto se vestia e calçava os sapatos e desfazia a barba, sempre a trautear – nã-nã-nã, lá-lá-lá – como se estivesse a dizer bom dia ao dia.
– Bom dia!
A avó, pelo contrário, começava a rezingar mal abria os olhos – zz-zz-zz, rr-rr-rr – e andava sempre assim enquanto se vestia e calçava os sapatos e arranjava o cabelo em forma de coque, nunca parava de refilar – rr-rr-rr, zz-zz-zz – como se estivesse a dizer mau dia ao dia.
– Mau dia!
À primeira vista parecia que não se davam bem, sinceramente, porque estavam sempre, mas mesmo sempre, a mandar vir um com o outro.
– Vai para ali! – Dizia a avó.
– Vem para aqui! – Retorquia o avô.
Aqueles dois eram mesmo pau e ferro, quente e frio, cheio e vazio, mas quem olhava melhor para eles, assim com olhos de bem ver as coisas, percebia que, afinal, gostavam imenso um do outro e isso era algo bonito de se sentir, era uma lição de vida, a ensinar-nos que o amor não une apenas o que é igual e equivalente, mas também o que é diferente e antagónico, oposto, contrário e adverso.
Já agora, convém dizer que o avô do Rapaz era alto e magro, ao passo que avó era baixa e gorducha.
No quarto dos avós havia uma cama de madeira enorme e duas mesinhas de cabeceira, uma de cada lado, e na parede por cima da cama havia um crucifixo em estanho.
Um dia, o avô explicou ao Rapaz que o estanho é um metal fácil de moldar, mais ou menos como se fosse uma ideia, mas depois fica com aparência de ser rijo e forte, exatamente como acontece com qualquer ideia feita, que fica dura e possante, quando na verdade é dúctil como o estanho, ou seja, simples de manusear e de alterar.
O Rapaz não percebeu nada da conversa do avô, até porque – pensou ele naquela altura e ainda hoje pensa o mesmo – há sempre coisas no Mundo que a gente nunca entende, porque são estrambólicas e secretas, coisas que nos fazem coçar na cabeça como se tivéssemos piolhos e obrigam-nos a estudar muito e a pensar mais ainda para as compreender e assimilar, o que muitas vezes só acontece quando já somos velhos e estamos prestes a morrer.
Seja como for, o Rapaz nunca mais se esqueceu da palavra dúctil e ele dizia dúctil como uma ideia, ou dúctil como o colchão da cama onde dormiam os avós, cujo recheio era palha de milho, e na mesinha de cabeceira do lado da avó estava sempre um candeeiro a petróleo, pois isto aconteceu numa altura em que muita gente não tinha dinheiro para comprar eletricidade nem colchões como deve ser. As pessoas eram quase todas pobres e, de certa forma, dúcteis.
Naquele tempo, as casas cheiravam a combustível, como se fossem máquinas, e também cheiravam a azeite queimado e cera de vela e não havia televisão, nem computadores, nem telemóveis, nem sequer havia fogão, frigorífico ou micro-ondas. A vida – pensa agora o Rapaz – não era como se vê hoje, com muita animação de dia e muitas luzes à noite. Nada disso. A vida era mais calma naquela época, mais lenta e, sobretudo, mais difícil, mais custosa, e, por isso, já ninguém tem saudades dela...