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Artigo de Opinião

HISTÓRIAS DA MINHA HISTÓRIA

19/06/2026 07:30

Dizem que não há duas sem três e, neste caso, o adágio cumpre-se já que este será o terceiro texto em que falo sobre números. O primeiro sobre o sete e o segundo sobre o treze, ambos rodeados de tantos significados que cada um deles preencheu todos os carateres reservados a este espaço. Ainda que mais discretos, decidi não ignorar outros bem comuns na linguagem quotidiana.

A invenção dos números foi algo de fabuloso. Eles fazem de tal forma parte do nosso dia-a-dia, que, habituados à sua presença, nem a valorizamos. Porém, não é difícil imaginar como seria tão mais difícil representar a quantidade, sequenciar uma ordem, ou fazer cálculos sem esses símbolos gráficos inventados por volta do século V, na Índia e divulgados pelos quatro cantos do mundo pelos árabes que os trouxeram até a área geográfica que hoje habitamos. Foi uma simplificação facilitadora de pronto adotada em substituição da numeração romana que então se usava por cá.

O mundo dos números é infinito, cheio de cambiantes e possibilidade de combinações infindas. Há números pares, ímpares, cardinais, ordinais, inteiros, decimais, primos, e mais não acrescento, porque, sendo eu quase um zero à esquerda no assunto, prevejo que me meteria num grande trinta e um. Prefiro enveredar pelos quês dos números na nossa língua porque bem sabemos que, quando nos aventuramos por assuntos que não conhecemos, corremos sérios riscos. Arriscamos e, às duas por três, deparamo-nos numa encruzilhada.

Será esta minha opção, medo de enfrentar uma dificuldade? Talvez sim, ou então apenas uma questão de comodismo. De qualquer forma, digamos que o medo também tem as suas vantagens. É verdade que nos tolhe a ousadia e nos pode impedir de avançar, mas, por outro lado, pode abrir-nos novos rumos, sem esquecer que ele também nos protege. O medo é aquilo que nos dá a consciência dos nossos limites, pelo que ausência de medo pode mesmo ser perigosa. Como em tudo, há que encontrar o meio-termo; nem oito, nem oitenta.

Neste caso, é apenas porque prefiro o desafio de compor um texto com expressões populares compostas com números. Brincar com a linguagem diverte-me e espero vos divirta também. Penso que esta é uma forma inofensiva de nos distanciarmos um pouco de realidades que chegam a cada hora através dos noticiários. O mal parece agigantar-se sobre o mundo e os confrontos entre povos, que acreditei não mais viveríamos, estão vivos, ativos, destrutivos e impressionantemente letais. O engenho e a crueldade dos humanos persistem e, com rapidez, espalham-se aos quatro ventos. Tememos que algum maluco faça disparar armas arrasadoras que nos deixem, se não mortos, feitos num oito. As palavras sobre a urgência de tréguas ouvem-se pouco e são de efeito nulo ou demasiado lento para os que sofrem. Convocam-se encontros, enviam-se embaixadas de negociadores, contudo, aquilo que acordaram vale zero. Os ataques continuam e concluímos que, afinal, os compromissos assumidos foram um trinta e um de boca, sem validade.

E lá divergi para o campo das preocupações, eu que me propunha fazer trinta por uma linha para escrever algo animador. A verdade é que procuramos ignorar, mas fica sempre um elefante, ou uma manada deles, a povoar-nos o pensamento e, se um elefante incomoda muita gente, uma manada deles incomoda muito mais.

Dizem que à terceira é de vez. Não sei se será, mas, por agora, termino com o detalhe curioso de, na nossa língua, para além da unidade, ser o dois o único que tem forma feminina.

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