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Artigo de Opinião

Presidente da Delegação Regional da Madeira da Ordem dos Psicólogos Portugueses

7/12/2023 08:00

Não só devido à sua natureza, mas também às condições em que são exercidas e ao desgaste que inevitavelmente comportam, certas profissões, por exemplo na área da saúde mental e do serviço comunitário, estão particularmente sujeitas a riscos psicossociais e os profissionais em maior risco de stress e burnout. A prestação de um serviço ao outro quando este se encontra em situação de maior vulnerabilidade e dificuldade requer muitas competências, em que a empatia se destaca, e envolve uma elevada exigência emocional, face às situações com que os profissionais estão confrontados. São profissões sujeitas a desgaste e à chamada fadiga da compaixão.

Se a realidade de uma atividade profissional tem estas características, é desde logo essencial que os profissionais tenham consciência disto e, portanto, valorizem e procurem promover o seu autocuidado, isto é, contribuam para as condições que assegurem o seu bem-estar e a qualidade dos serviços que prestam. O autocuidado não é uma espécie de luxo ou um extra que podemos fazer para nos protegermos e garantirmos bem-estar, nem é algo engraçado ou simpático que fazemos esporadicamente. Na verdade, o autocuidado é um aspeto central da profissão, diríamos até uma responsabilidade ética e deontológica.

O autocuidado requer que cada um se conheça a si, aos seus limites e necessidades, bem como o que significa exercer uma determinada profissão. E que exista uma atitude de base que lhe é favorável, por oposição a uma espécie de romantização do excesso de trabalho, da ausência de limites e outros aspetos disfuncionais. Este é um ponto de partida que abre espaço para uma ação que tem de ser sistemática e organizada, já que o autocuidado não são ações avulsas, e que deve ser aplicada conforme cada caso, já que diferentes coisas resultam com diferentes pessoas. A flexibilidade na abordagem aos problemas, o equilíbrio entre diferentes dimensões da vida, destacando-se a importância do tempo livre e de lazer e as relações interpessoais, bem como a preocupação com a saúde física são aspetos a ter em conta também na promoção do bem-estar de cada um.

Mas assegurar que os profissionais estão nas melhores condições de responder às exigências da profissão não é apenas uma responsabilidade individual destes. Da mesma forma que a ausência de preocupação de cada profissional com o seu autocuidado traz problemas para si e contribui para a disfuncionalidade da sua instituição, também numa organização com uma cultura que não valoriza o autocuidado dos profissionais ou com um clima tóxico, todos ficam a perder. É por isso essencial que as instituições tenham também a consciência que promover o autocuidado dos seus profissionais é um aspeto central e que, mais do que ações pontuais, isso envolve questões como a comunicação, a organização do trabalho, as condições fornecidas e oportunidades de desenvolvimento, a promoção do equilíbrio entre vida pessoal e profissional, as modalidades de trabalho, a prevenção e a avaliação dos riscos psicossociais, entre outros. No fundo, uma cultura que vê a saúde e o bem-estar não como um bónus, mas como um elemento essencial, não apenas no plano da sua responsabilidade humana e social, mas também para a produtividade e competitividade. Entre o compromisso individual em ser competente e a responsabilidade das organizações em que os profissionais estão inseridos, há certamente muito a fazer.

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