Janeiro não me parece um começo. Parece-me uma margem. Aquele espaço em branco que acompanha o texto sem o apressar, onde não se escreve para avançar, mas para compreender. Não pede decisões nem promessas. Limita-se a existir ao lado da história, disponível, silencioso. Talvez por isso me seja impossível entrar em janeiro com pressa. Dezembro deixou-me outro ritmo nas mãos. Um ritmo feito de lentidão, de ócio sem culpa, de dias que se dobraram sobre si mesmos como páginas relidas. Houve mesas longas, conversas sem hora marcada, risos que interromperam a leitura, beijos demorados, tardes de embalo no sofá e, pela primeira vez em muito tempo, essa interrupção não foi uma falha, mas um sentido. Em dezembro aprendi a ler menos. E a ler melhor. Fechei livros para olhar pessoas. Recusei-me a iniciar novas histórias sem, antes, compreender profundamente as que acontecem à minha volta. Voltei atrás em parágrafos antigos. Deixei capítulos a meio, sem a ansiedade de chegar ao fim. Pedi ao meus que me repetissem acontecimentos, decorei-lhes as palavras, registei memórias. A vida, nesses dias, também se deixou ler assim: sem sublinhados excessivos, sem esquemas, sem a necessidade de entendimento imediato.
Janeiro chega e o mundo insiste na rigidez. Planos, metas, listas, direções, objetivos, eficácia, sucesso, excelência. Mas eu prefiro continuar onde dezembro me deixou. Não quero páginas limpas. Não quero uma primeira folha em branco. Quero margens habitadas. Quero anotações a lápis, frases escritas de lado, post-its com hipóteses, ideias que não precisam ainda de forma definitiva, bilhetinhos na mesa de cabeceira, um “amo-te” escrito a batom no espelho da casa de banho, títulos espalhados pela casa. Há livros que pedem silêncio em vez de análise, tal como há dias que pedem presença em vez de produtividade. Há livros que nos ajudam a aceitar essa permanência. O “Livro do Desassossego”, de Fernando Pessoa, ensinou-me que pensar é, muitas vezes, ficar. Que a fragmentação não é falha, mas método; que o vagar pode ser uma forma complexa de atenção. Quero um quarto só meu, como Virginia Woolf desejava, onde tempo e espaço não sejam luxos, mas condições de existência do pensamento; um quarto silencioso onde a mente respira e onde a vida não é imediatamente traduzida em rendimento.
E há também as ausências. Janeiro carrega-as com mais nitidez. Talvez porque o amor vivido em dezembro ilumine melhor os lugares vazios. A saudade instala-se como uma nota de rodapé: discreta, constante, impossível de ignorar. Não interrompe a leitura, mas dá-lhe intensidade. Ensina-nos que nem tudo o que importa está no corpo do texto.
Por isso, não começo nada em janeiro. Continuo. Continuo a ler devagar. Continuo a amar sem horários. Continuo a permitir que a vida se escreva com falhas, pausas e margens largas. Janeiro, para mim, é isso: o lugar onde não se exige avanço, apenas permanência. Migalhas de pão sobre a mesa. A roupa a secar ao vento. Uma planta que cresce sem ser notada. O cheiro a sabonete nas mãos. A cama desfeita durante o dia. A poeira a dançar ao sol.