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Artigo de Opinião

DO FIM AO INFINITO

2/01/2026 03:00

Sempre que transito de um ano para outro, penso que o mais extraordinário que me poderá acontecer no novo ano é morrer. Sem dúvida. Morrer é mesmo o mais extraordinário que me poderá acontecer nos próximos 12 meses e eu penso nisso com uma intensidade vívida, algures numa fração de segundo situada entre as 00:00 e as 00:10 do dia 01 de janeiro, enquanto o fogo-de-artifício clareia a noite na minha cidade.

(Já agora, importa dizer que quando não estou na Madeira o espetáculo pirotécnico ocorre na mesma dentro de mim, como se eu fosse a baía e o anfiteatro do Funchal, de modo que acabo por pensar nisto em qualquer lugar.)

Não consigo precisar desde quando comecei a pensar assim, sendo certo que se trata de um pensamento da idade madura, nascido já depois dos 45 anos, mas sei que se agudizou após a morte do meu pai, em 2020. Foi então que, finalmente, vi como é que a minha vida poderá acabar na melhor das hipóteses: exatamente como a dele.

São sempre poucas as alternativas para um final de vida feliz e aquele não foi mau de todo. Apesar da solidão e do cancro que o matou aos 84 anos, soube sempre quem era e onde estava e tudo o que o rodeava pertencia-lhe: filhos, casa, fazenda, pensão de miséria. Parece-me uma coisa boa, considerando que não lhe faltava nada e ele afirmava que nada mais queria. Além disso, esperou sentado num banco no quintal até à véspera da partida. Posso também acabar assim que não levo a mal.

Já as opções para um final infeliz são inúmeras e eu dar-me-ei por satisfeito se nenhuma delas me calhar. Mas, como é óbvio, o meu desejo não é para aqui chamado...

De resto, hei de ficar pasmado a ver o tempo correr, mais não seja porque, como diz Antón Chekhov no conto ‘Uma noite no cemitério’, “o Ano Novo é um rebotalho igual ao ano velho, com a única diferença de que o ano velho foi mau e o novo será sempre pior”.

De modo que, uma vez mais, hei de ficar boquiaberto face ao desenrolar do horror no mundo e também hei de ficar muito espantado com os triunfos do amor. Pelo caminho, vou baixar novamente os braços. Vou sentir-me impotente, inútil, impostor. Vou baixar a guarda ao ponto da mais pura indiferença e vou praguejar como um danado contra a merda do dinheiro e o mal que ele semeia no coração da humanidade.

Mais: vou vomitar desamor e vou chorar por mais amor, mais atenção, mais carinho e vou bater com a cabeça na parede por causa disso. Também vou dizer repetidamente:

– Amo-te, Pat!

Continua a ser o mais importante.

E vou escrever muito sobre o assunto, ou, se calhar, vou calar-me de repente e depois vou pegar lume nos cadernos, vou fazer ‘delete’ em todos os documentos no computador e prosseguir viagem sem olhar para trás. Na verdade, já não tenho nada para contar e, além disso, o mundo está cheio de escritores mil vezes melhores do que eu e outros mil vezes piores, todos já com obra publicada e bem comercializada, pelo que o resto pode ficar para eles.

Vou também lutar contra mim todos os dias, batalha atrás de batalha, em guerra civil permanente, vou explodir por dentro sem acordo de paz, pancada diária quase até à morte, mas todos os dias hei de regressar a casa sem um único arranhão à vista e ninguém saberá jamais os perigos que corri enquanto estive fora, ninguém.

Tudo se degrada, tudo se perde, tudo se esquece, da mesma maneira que tudo se resolve. Nada dura eternamente e a felicidade de cada dia morre sempre antes da meia-noite, vítima de um qualquer gesto mal-encarado, ou de um pensamento ruim, ou de uma palavra mal dita. Não tenham dúvidas: só o silêncio e o vazio conseguem salvar a felicidade.

Por outro lado, considerando que o mais extraordinário que me poderá acontecer no novo ano é morrer, vou apostar tudo em nada. Como sempre. Bem sei que há várias formas de morrer, mas apenas uma mata a sério. É dessa que falo e, por isso, gosto de apostar sempre tudo em nada, a ver se me mantenho vivo por mais 365 dias.

E agora, posto o choradinho, vamos lá às resoluções de Ano Novo, só coisas boas e estruturantes, que sem elas isto não vai a lado nenhum.

Número 1: vou fazer mais...

Duarte Caires escreve à sexta-feira, todas as semanas.

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